sábado, 27 de outubro de 2018

O Medo e... O Vento



“– Olhe, senhor, aqui não há encanto nem alguma coisa que se assemelhe a isso; eu vi entre as grades um leão verdadeiro, maior que uma montanha!
– O medo – respondeu Don Quixote – fará com que ele pareça maior que o mundo!”
(Adaptado de ‘Don Quijote de La Mancha’, de Miguel de Cervantes)

Caros amigos,

Havia muitas opções. Candidatos liberais, socialistas, de centro, uma mais voltada para os temas de sustentabilidade.

Mas, não. Infelizmente, a maioria das pessoas abandonou o bom senso já no primeiro turno e, por medo de um extremo ou de outro, nos ofereceram a situação atual: decidir entre radicais.

Discutir se é mais provável o PT nos transformar em uma Venezuela de Chávez ou Bolsonaro nos levar a ser um Chile de Pinochet é improdutivo, pois os dois candidatos a presidente e/ou seus partidos têm, em seu currículo, discurso e atitudes muito antidemocráticas. Antes e durante a campanha de 2018 isso ficou muito claro.

Em muitos momentos houve um recuo estratégico, um direcionamento para o caminho do meio. Mas, como não dá pra carregar água com a peneira, e muito menos esconder o sol com ela, vídeos, cartas e outros documentos com declarações tolas, muitas delas previsíveis, sempre surgiram, mesmo e, principalmente, nesta semana.

Mas, como Jair Bolsonaro, um homem do sistema, pois está nele há quase três décadas, sendo um profissional de carreira na política, conseguiu se colocar como uma opção à ‘velha política?’


Seu eleitorado era inicialmente composto pelos bobalhões de sempre: homens machistas, com caras de tolos, rindo de qualquer besteira e com ideias retardadas. Muitos deles são, como eu chamo, ‘reacionários suburbanos’. Depois, após o crescimento de Haddad nas pesquisas, foram se juntando aos eleitores de Bolsonaro os desesperados antipetistas xiitas e sunitas. Após, os que se consideram liberais econômicos (sem normalmente ter noção do que se trata). Estes abandonaram seus candidatos e, de forma irracional, votaram em massa em Bolsonaro no primeiro turno, quase o levando a uma vitória já na primeira fase das eleições.

E por que uma figura inexpressiva, sem nenhum carisma, como Fernando Haddad, que foi um prefeito ruim para a cidade de São Paulo, conseguiu chegar ao 2º turno para presidente?


A militância petista constitui a primeira camada de seu eleitorado, é claro. Um conjunto de pessoas curiosamente cegas, surdas e inconsequentes, que acham que nada, absolutamente nada foi feito de errado pelo PT nos últimos anos. Como disse a escritora Eliane Brum, do periódico progressista El País Brasil: ‘(O PT) se corrompeu no poder e se aliou ao que havia de mais nefasto na política nacional. E sofrerá também porque o PT fez tudo isso e nenhuma autocrítica. Nem uma autocrítica bem pequenina, uma autocriticazinha. Nada que mereça esse nome’.

A segunda camada, principalmente nesse segundo turno, se constitui de pessoas que temem um retrocesso em relação aos direitos humanos, às conquistas de minorias e ao cuidado com o meio ambiente.

O PT tentou também se posicionar como defensor da democracia, mas não deu muito certo. O radicalismo dos últimos anos, ilustrado com vasto material que disputa no nível mais baixo com o do Sr. Bolsonaro, não dá para esconder.

Como disse Fernando Gabeira, em recente artigo, eu também creio que pode haver uma diminuição da qualidade de nossa democracia.

Apenas, como um dos exemplos de poucas ideias democráticas, vamos aos ídolos dos candidatos.


O ídolo do Sr. Bolsonaro é o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, cujo sobrenome ridículo poderia ser motivo de piada caso este não fosse uma figura negra de nossa história. Ele foi acusado de ser um contumaz torturador enquanto chefe do DOI-CODI do II Exército (de 1970 a 1974), um dos órgãos atuantes na repressão política, durante o período da ditadura militar no Brasil. Os depoimentos contra Ustra são muitos e revelam um lado triste do país. Um presidente da república ter o coronel Ustra como referência é um absurdo, é imoral.

Fernando Haddad, o candidato do PT, não deve ficar longe em termos de ídolo. Pela idade, 55 anos, e formação marxista, deve ser igual a todo mundo da turma ‘comunista caviar’ de sua geração. Acredito que tem como herói o ex-ditador cubano Fidel Castro, responsável, dentre outras barbáries, por fuzilamentos de críticos ao regime político da ‘sua’ ilha. Também é absurdo, é imoral um presidente da república ter o senhor Castro como referência

Ustra e Castro já faleceram. Como dizia, com muita propriedade, meu velho pai: ‘Caíram igual a uma pedra no inferno!’. E eu completo: ‘o diabo deve estar tentando se livrar deles, desesperadamente’.


Sou um viajante no tempo e vivi para ver, escutar e ler coisas muito estranhas durante a campanha eleitoral de 2018. Fui lentamente fazendo uma análise dos discursos das pessoas, de sua raiva, de suas desculpas para votarem em candidatos tão fracos, despreparados, pífios mesmo.

Em uma posição totalmente indecisa, um amigo, que usualmente é ausente das redes sociais, está fazendo tratamento psicológico gratuito via internet, mudando de voto a cada 12 horas. E não é o único.

Em relação às pessoas favoráveis à Haddad, testemunhei, por exemplo, o caso de uma amiga, que, ao contrário da época do impeachment da presidente Dilma, quando estava inflexível, compartilhando vídeos anti PT a toda hora nas redes sociais, publicou em uma destas, nesses dias, um artigo do periódico Carta Capital, jornal conhecidamente favorável ao PT. Ela, sendo homossexual, teme por um governo Bolsonaro.

Outra amiga, esta da militância petista, que sempre criticou a jornalista Miriam Leitão, compartilhou nas redes sociais, declaração desta sobre o fato do PT ser democrático. Bem, segundo essa amiga, a Globo, a GloboNews e grande parte da imprensa nacional são mídias golpistas.

Um amigo, que conheço bem, incapaz de jogar papel no cesto para papéis recicláveis em sua residência, publicou textos a favor do meio ambiente. Também, era um antipetista atuante.

Abaixo uma edição das publicações mencionadas, preservando a identidade das pessoas.


Claro que não dá deixar de fora o pessoal que, literalmente, saiu do armário, favoravelmente a Bolsonaro. Teve de tudo: monarquistas e liberais em geral, que pouco ou nada conhecem da história do Brasil e do que é ser liberal. Ainda no primeiro turno, publicaram a tal da ‘transferência direta', de ‘Amoêdo para Bolsonaro’, ou seja, do PSDB Personalité para o ex nacionalista, agora liberal. E uma das publicações vinha acompanhado da frase: ‘Primeiro a ordem, depois o progresso’. Bem facistóide, não é?

Tudo bem, até entendo o desespero que possa gerar a possibilidade de um retorno do PT ao poder. Mas precisa tratar Bolsonaro como um deus? Uma amiga recentemente movimentou muita gente em torno de um projeto ambiental, que pouco me convenceu, pois estava claro que se tratava da defesa do ambiente ameaçado próximo à sua residência. Nunca soube dela atuando em outro projeto antes daquela ocasião. E veio agora com a frase na capa de seu perfil em uma rede social: ‘Eu faço campanha de graça’, gerando revolta de alguns companheiros de sua ‘luta ambiental’.

Uma das pessoas que mais me chamaram a atenção foi um antigo conhecido, com quem tenho contato muito distante. Médico, cirurgião, profissional bem colocado em sua área de atuação, benquisto entre as pessoas, mostrou um comportamento tão reacionário que me fez pensar qual seria sua atuação na Alemanha da 2ª.Guerra. Dele preservo as publicações, pois meus comentários são muito duros.

Fiz abaixo uma edição das duas primeiras publicações mencionadas, também preservando a identidade das pessoas.


E sobre a hipocrisia? Está sempre presente em eleições, é claro. Mas não dá para deixar passar alguns poucos exemplos.

A dupla Haddad e Manuela. Que cara de pau! Compareceram a uma missa em uma igreja na zona sul de São Paulo. Bem, creio que um não cristão possa fazer isso, participar de evento em um templo cristão e acompanhar a cerimônia. Mas, fica claro o antagonismo católico-evangélico nessa reta final. E marxistas, como sabemos, são tradicionalmente ateus. A Manuela já declarou ser ateia. E receber a comunhão é, como dizia um amigo, ‘meio muito’.

E faltou óleo de peroba para o PT mesmo. Em um vídeo da reta final de campanha, um jovem pardo se aproxima da urna e, por sua mente e, depois, pela mente de outras pessoas, passam reflexões sobre o que seria votar em Bolsonaro. O vídeo prossegue citando alguns pontos positivos de Haddad e, em um determinado momento, uma senhora, fazendo uma fisionomia como que pensando ‘eu tenho poder’, solta a frase: ‘Se fizer besteira a gente tira’. Ora, pois, impeachment parou de ser golpe? Segundo o PT, o povo não teve nada a ver com o impeachment da Dilma (só do Collor). De acordo com os políticos do partido e a militância, o impeachment foi um golpe de estado. E se Haddad for incompetente, teremos outro golpe de estado? E aprovado pela campanha publicitária do PT?


Bolsonaro tampouco fica atrás. Deu muitas recuadas nas suas declarações. Mas todo mundo sabe o que ele pensa. O material, principalmente em vídeo, é farto.

Os evangélicos e espíritas que votarem nele sabem que estarão dando um cheque em branco para uma pessoa que joga o mandamento de Jesus no lixo. Em João, capítulo 15, versículo 12, do novo testamento (a bíblia cristã), diz Jesus: ‘O meu mandamento é este, que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei’. Também cabe citar o 6º mandamento (dos famosos 10) que, segundo a tradição judaica, o deus dos hebreus transmitiu a Moisés. Êxodo, capítulo 20, versículo 13: ‘Não Matarás’.

Sem esquecer do discurso repugnante do dia 21 de outubro passado, cheio de ódio, transmitido ao vivo para uma Av. Paulista em puro estado de fanatismo, gostaria de citar duas declarações anteriores do Sr. Bolsonaro:

Durante o programa Câmara Aberta: ‘(...) E fazendo um trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil!’

Durante palestra na Hebraica-Rio: ‘Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo em casa’.

A seguir estão as fotos dos vídeos que são facilmente encontrados na internet.


O certo é que, como pesquisador, acompanhei o desespero das pessoas que, infelizmente, pensam que redes sociais são seus periódicos diários e que nós somos seus assinantes. Uma frase, normalmente atribuída a Florian Bernard, resume bem isso: ‘As mentes pequenas acham que têm (...) a concessão para falar e não dizer nada’.

Concluo relatando que minha constatação foi que a palavra que mais escutei foi... medo. Sim, há uma parte das pessoas, a base dos candidatos como acima mencionei, que votam com convicção. Mas, a maioria das pessoas, as que vão dar vitória ao novo presidente, garantirão sua faixa elegendo-o baseando-se em... medo! O que mais observei foi uma sociedade doente, desprovida de sanidade mental.

O mundo gira, o tempo passa, e novas ‘verdades’ surgem. Outrora poderiam parecer estranhas. Mas assim é a vida entre os seres humanos.

E o vento pode sempre mudar sua direção. Aceitar como natural é, às vezes, imprescindível. Tanto quanto lutar por uma vida melhor para todos os cidadãos.

Muitas vezes temos que lembrar de um dos versos do Tao Te Ching, que conclui com: ‘(...) nada se faz, mas nada deixa de ser feito’.

Franklin D. Roosevelt, presidente americano que conduziu os Estados Unidos após a grande depressão do final dos anos 1920 até quase o final da 2ª. Guerra, afirmou: ‘Não há nada a temer, a não ser o próprio medo’. O medo não pode ser motivo para a tomada de nossas decisões. Prudência, sim. Medo, nunca.

E, apesar de continuar achando improdutiva a questão se é mais provável o PT nos transformar em uma Venezuela de Chávez ou se Bolsonaro nos conduzirá a ser um Chile de Pinochet, caso queiram saber o que penso, eu acho pouco provável as duas possibilidades.

Digo-lhes que as tão faladas instituições podem ajudar, mas o que nos salva é o que mais nos atrapalha: a nossa bagunça. Esta certamente será tema para outro artigo.

Porém, sempre me lembro de uma frase de Zbigniew Brzezinski, diplomata e cientista político americano, de origem polonesa, que disse certa vez: ‘Você nunca deve subestimar a estupidez do ser humano’.

Desejo-lhes uma boa votação. Não direi que espero que o melhor entre os piores vença, pois, dessa vez, tenho a convicção que essa figura não existe.



domingo, 21 de outubro de 2018

Em Tempos Difíceis...


A cultura não é propriedade de uma vertente política radical.
E muito menos será despedaçada por outra tão radical quanto.
Os artistas cujas mentes não estão aprisionadas por ideologias estarão sempre alertas.

A Change Is Gonna Come,
Composta e interpretada por Sam Cooke.



Your Song,
Composta e interpretada por Elton John.



Fogo e Gasolina,
Composta por Pedro Luís e Carlos Rennón e iterpretada por Roberta Sá.



Starman,
Composta e interpretada por David Bowie.



Respect,
Composta por Otis Redding e interpretada por Aretha Franklin



Alfonsina y El Mar,
Composta por Ariel Ramírez e Félix Luna e interpretada por Mercedes Sosa.



The Great Pretender,
Composta por Buck Ram e aqui interpretada por Fred Mercury.






domingo, 15 de outubro de 2017

Censura, Arma do Extremismo





Nesse texto eu não me aprofundarei no assunto ‘arte contemporânea’, pois não é relevante aqui dizer se obras presentes nas recentes exposições que geraram polêmica no Brasil são fruto de inspiração e genialidade ou provocação de mau gosto. Também não escreverei sobre como as leis de incentivo privilegiaram muitas manifestações artísticas nos últimos anos, catapultando artistas próximos ao grupo ideológico que controlava as aprovações ou não dos projetos apresentados. Também não será assunto desse texto descrever e comentar a inegável carolice ainda enraizada em nosso país, que é facilmente observada na quantidade enorme de pessoas sexualmente reprimidas que tratam o tema ‘arte’ como se ainda estivéssemos na Era Vitoriana (Reino Unido, Sec. XIX).

O assunto sobre o qual quero escrever é, para mim, o que é essencial nesse momento: censura e liberdade de criação e opinião.

Começo minha exposição citando trecho de um depoimento muito emotivo, da atriz Fernanda Montenegro, que sempre exprime sua opinião com muito discernimento: ‘Tudo é cultura, inclusive a cultura de repressão. Mas só há um tipo de cultura que realmente constrói um país: é a cultura da liberdade. A cultura liberta, cria alma de uma nação.’




Minha geração se iniciou quando a censura em nosso país estava em seus momentos mais terríveis e ridículos também, dentro da ditadura militar (1964-1985). Houve censura em vários outros momentos de nossa capenga república. Mas eu só os conheci em livros de história.

Ela chegava até nós, crianças, de outro modo. Algo como: ‘Isso não pode ser dito!’. Um momento que ainda me recordo, e sobre ele gostaria de me aprofundar mais em um texto sobre ditadura, foi quando meu pai se despediu de mim em um dos meus primeiros dias de escola. Possivelmente 1974 ou 75, com Geisel ou Médici na presidência. Papai tinha jeito com criança. Mas quando a coisa era muito séria, ele conversava conosco como se fôssemos adultos, mesmo que não entendêssemos nada. Era seu jeito de tentar fixar algo em nossas cabecinhas, meio no desespero. E ele me ordenou, com mais ou menos essas palavras: ‘Caso perguntem se seu pai critica o presidente, não diga nada, sim?’.
Para meu pai não tinha essa de esquerda ou direita. Devia ‘meter o pau’ no governo militar e na repressão em conversas íntimas, mesmo sem defender PCs, lutas armadas e outras idiotices. Extremismos não faziam parte de sua agenda. Como um cidadão honesto, trabalhador, pai de família, devia ter prudência para não atiçar os órgãos repressores, com seus tentáculos espalhados por todo canto. Experiente, inteligente, sabia que se houvesse algum amiguinho da escola cujo pai era investigador da polícia civil, este podia querer saber o que meu pai tinha falado. Com tortura ou, no mínimo, humilhações.

Não havia direito de dar opinião sobre muitas coisas. Isto se chama censura. Sabemos hoje quão ignorantes eram os censores, responsáveis por ‘capar’ ou proibir um texto, um disco, um livro, uma obra de arte, uma novela, um artigo de jornal ou qualquer coisa pública.



Foto do Conselho de segurança nacional que aprovou o Ato Institucional nº5, em 13 de dezembro de 1968, que oficializou a ditadura no Brasil e institucionalizou a censura e a opressão por parte do Estado.

E, para neutralizar a horrível foto acima, publico também a mais linda das imagens da marcha contra a ditadura e a censura, ocorrida no dia 26 de junho de 1968 (Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro). Na foto, as atrizes Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell lideram um grupo durante o protesto.




Bem, mas a censura não ocorre só em ditaduras ditas de ‘direita’. Também é uma arma importante das ditaduras ditas de ‘esquerda’. A repressão à opinião contrária à oligarquia governamental, às suas atitudes e ações não é ‘privilégio’ dos extremistas classificados como ‘esquerda’ ou ‘direita’. Como querem se manter no poder a qualquer custo, lançam mão dessa poderosa arma para silenciar qualquer forma de oposição.

Por isso, os governos extremistas nunca investem em uma educação que seja livre de caráter ideológico. Cuba, por exemplo, é dominada há décadas por uma oligarquia ditatorial. Dizer que lá não há analfabetos e que as pessoas tem educação gratuita é muito raso. Essa afirmação deveria estar acompanhada do complemento de que toda criança nessa ilha sofre lavagem cerebral ideológica desde a primeira infância.



Ex-lideres e um líder atual de ditaduras de ‘esquerda’: Stalin, Mao Tse Tung, Fidel Castro e Kim Jong-Un


Eu digo por mim mesmo, baseando-me no já citado regime militar brasileiro pós 64. Em plena ditadura, em nossas aulas da famosa ‘educação, moral e cívica’, eu tive que decorar todos os hinos militares do país. E sou capaz de cantar uma parte deles após cerca de 40 anos. E, como sempre gostei muito de música, nutria um prazer grande em cantar o da marinha. Há um conhecido daquela época que, na fase em que a presidente Dilma estava para cair, escreveu um ‘post’ afetuoso sobre as aulas de EMC em seu perfil no Facebook. Sofreu lavagem cerebral da tal ‘direita’. Para mim, só restou o Cisne Branco, felizmente.  

E também para neutralizar a imagem anterior, com tanta gente feia, posto fotos de líderes mundiais que lutaram e lutam pela paz e direitos de minorias: Martin Luther King, Dom Hélder Câmara, Thich Nhat Hanh e Papa Francisco.



Sobre as exposições que geraram polêmicas, o certo é que, contra elas, houve uma violenta manifestação via redes sociais e discussões provocadas nos espaços onde as mesmas ocorriam/ocorrem vindas de grupos reacionários com níveis diferentes de organização. Sempre citam o MBL, mas os primeiros manifestantes contra a exposição Queermuseu do Santander Cultural, em Porto Alegre, que a acusaram, histericamente, de pedofilia e zoofilia, nada têm a ver com esse grupo. Inclusive reclamaram que o tal grupo de ultra direita, já acusado de propagar ‘fake news’ sobre outros assuntos, apropriou-se indevidamente da ‘denúncia’ deles. É o porco falando mal do toucinho.



A exposição apresentava obras muito variadas, de diferentes épocas, algumas de artistas reconhecidos internacionalmente, como Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Lygia Clark e Pedro Américo. O fato é que, mesmo que a exposição tenha sido prematuramente encerrada, pela entidade responsável, a divulgação das obras aumentou muito, tendo elas sido inclusive projetadas em Museus de NY. É o efeito contrário, sempre presente nesses casos. Vale lembrar que promotores do Ministério Público atestaram que não havia incitação à pedofilia nas obras.


Durante o 35º Panorama de Arte Brasileira, tradicional exposição bienal no MAM, ocorreu a performance do coreógrafo Wagner Schwartz, que estava nu. A polêmica foi causada pela interação de uma criança com o artista, tocando o corpo do sujeito, nas mãos e nos pés. Uma reação agressiva ‘viralizou’ nas redes sociais. O MAM, em nota divulgada no Facebook, ressaltou que a criança estava acompanhada da mãe e que a sala onde ocorria a performance estava '’devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística'’. O museu também garantiu que o trabalho, intitulado La bête (a besta, em francês), não tinha qualquer conteúdo erótico. Organizações de ultra direita e esquerda radical travaram suas tradicionais batalhas virtuais.  Não é meu interesse aqui exprimir opinião sobre a qualidade das obras, como já disse. Claramente me coloco a favor da liberdade de exposição das mesmas. Mas há realmente que se coloque que, como temos o Estatuto da Criança e do Adolescente e nos referimos a ele como avançado para a proteção aos menores de idade, ele deve ser considerado em relação à presença de crianças nas chamadas ‘performances artísticas’ que incluem nus. Como? Lendo e interpretando corretamente o mesmo.


Em Belo Horizonte, onde moro, também houve confusão. E aqui, apesar de debates físicos e virtuais, a exposição “Faça Você Mesmo Sua Capela Sistina”, do artista Pedro Moraleida, no Palácio das Artes, começou a receber o triplo de visitantes após o apoio da classe artística, que se mobilizou, e do prefeito Alexandre Kalil que, com seu jeito direto e prático de se expressar, resumiu bem: ‘Aqui é local adequado. Isso aqui é uma galeria de arte. Você pode gostar ou não gostar. Vir ou não vir’. Incrível! Na provinciana BH a exposição não foi fechada!


Religiosos também quiseram dar seu ‘pitaco’ sobre o assunto, mesmo com conhecimento limitadíssimo do que seja arte. Revoltada com essa ‘interferência’, uma conhecida, renomada artista mineira, iniciou um texto escrevendo que ‘Igreja é lugar de religioso. Galerias e Museus são lugares do artista’. Apesar de entender até o sentido que ela quis dizer, creio que ela foi, de certa forma, infeliz, como lembrou um amigo desta em um comentário no ‘post’, escrevendo que igrejas são lugares em que a arte está muito presente.

Particularmente acho que todo mundo tem direito de opinar sobre o que quiser, dizer que gosta ou não gosta disso ou daquilo, sob seu ponto de vista. O que não é bom é gerar uma situação agressiva e opressora. Atitudes que levam à censura são perigosas para uma sociedade ainda desequilibrada como a nossa.

O já citado efeito contrário ao desejado pelos críticos, que almejam a censura, é lugar presente. Um dos clássicos exemplos internacionais é o selo ‘Parental Advisory’, adotado pela Recording Industry Association of America (RIAA) em 1985 e, em 2011, pela British Phonographic Industry (BPI). Mary "Tipper" Gore, ex-esposa do 45º Vice Presidente americano, Al Gore, é comumente creditada pelos principais movimentos que levaram ao selo Parental Advisory. Mas, desde sua introdução, tem havido questionamentos em relação à efetividade do selo. Dizem que os artistas se beneficiam da etiqueta. Os ouvintes jovens interessados em conteúdo explícito podem encontrá-lo mais facilmente com a indicação. Lembrando que, nos Estados Unidos, a 1ª. Emenda à Constituição protege completamente o direito de expressão dos cidadãos americanos. Curiosamente, apesar desse radicalismo de ‘Tipper’ Gore, que foi motivado por razões familiares, ela é ativista pelos direitos de minorias, incluindo os dos LGBT.


Um fato curioso que observei pela movimentação nas redes sociais, que fornecem farto material para minhas pesquisas, é a polarização não política nesse caso. Enquanto existia aquela discussão entre antipetistas e anti antipetistas (antes do PMDB passar a perna nos dois), via-se um dualismo puramente ideológico e retrógado. Agora não. Pessoas que não fazem parte dos grupos chamados de esquerda, mas que são defensores das manifestações artísticas e/ou dos direitos LGTB, estão, obviamente, contrários aos grupos chamados de ‘extrema direita’. Mas não se alinham à chamada ‘esquerda cultural’, pois esta também tem seus podres. E que podres.

Sempre me lembro de fatos que ocorreram no passado para relacioná-los com o presente, pois sou um viajante no tempo. O filósofo Luiz Felipe Pondé, também polêmico, conseguiu resumir muito bem o que penso: ‘Do ponto de vista da esquerda cultural, falando do ponto de vista da liberdade de expressão, a gente sabe que a esquerda cultural não tem nenhuma moral para falar da liberdade de expressão. Na verdade, o maior número de casos de busca de censura, nos últimos tempos no país, veio justamente da esquerda cultural, e os seus discursos que visavam o que se chama de politicamente correto.’

Dois exemplos ficaram bem claros para mim nos últimos tempos. Eu não poderia me esquecer do que aconteceu com Yoani Sánchez, blogueira cubana que enfrentou todo tipo de protestos em sua visita ao Brasil em 2013. A moça, de hábitos simples, que viveu toda sua vida em uma Cuba estacionada no tempo há mais de 50 anos, teve imensa dificuldade em sair do país para vir ao Brasil, mesmo recebendo convites para eventos culturais e debates. Chegando aqui, houve uma barbárie. Foi recebida com protestos nos aeroportos, com cartazes ofensivos, gritos pró-Cuba, chamando-a de ‘mercenária’, ‘agente da CIA’, jogando cópias de dólares nela, dentre outras bobagens. Mas ela também recebeu carinho dos brasileiros, é claro, como podemos ver na 1a. foto (abaixo), à esquerda.


Yoani, que teve seus cabelos puxados por um dos manifestantes, creio que em Salvador, foi também impedida de continuar um debate na Livraria Cultura de SP.



Bem, vi muitos manifestantes da extrema 'esquerda', nas redes sociais, reclamarem que museus e galerias são espaços para exposições. Sim, concordo. E livrarias são espaços para gritos e censura? Yoni só comentou: ‘Eles gritam porque não tem argumentos’. Na foto seguinte o cartaz ‘Fale, Yoni, Fale!’ e outro de Porto Alegre: ‘Censura = Morte’.



O segundo caso que gostaria de incluir é o da autorização de biografias. Foi uma batalha que levou anos para ser finalizada quando, em junho de 2015, o STF liberou, por decisão unânime, biografias publicadas em livros, revistas e novelas. Os ministros destacaram que abusos podem levar a medidas de reparação, o que é justo, claro.

O grupo ‘Procure Saber’, dirigido por Flávia Lavigne, empresária e ex-esposa de Caetano Veloso, foi responsável pelo ‘lobby’ contra as chamadas ‘biografias não autorizadas’. O grupo incluía, além de Caetano, Chico Buarque, Gilberto Gil, Roberto Carlos e Djavan. Os três primeiros são conhecidos militantes da esquerda cultural. Flávia e seu pessoal foram acusados por diversos escritores e jornalistas de querer praticar censura prévia. Perdeu. E, curiosamente, o Sr. Caetano Veloso, incoerente e ávido por uma mídia, aparece agora defendo as artes e se mostrando contra a censura das manifestações artísticas.



Para complementar, vale lembrar a visita, em 18 de julho de 2017, do senador Cristovam Buarque (PPS-DF) à UFMG, para participar de uma palestra e lançar seu livro 'Mediterrâneos Invisíveis'. Após a palestra, quando deixava o local para almoçar, o senador foi seguido por alunos e professores da universidade e de outras entidades de ensino superior presentes ao evento do dia, que o hostilizaram, o chamando de ‘golpista’ e ‘traidor’. Ora, Cristovam é um homem educado, moderado, pacífico. Tem uma biografia respeitada e não compactua com ideias radicais como volta de ditadura, diminuição de direitos de minorias e outros assuntos retrógrados que são ventilados por reacionários intolerantes. Tampouco participa do governo atual e já fez duras críticas ao presidente Temer e aliados. Como ele votou a favor do impeachment da presidente Dilma, estava e está sujeito a críticas pelos defensores dela, é claro. Mas tudo dentro do respeito que ele certamente merece. Como pude constatar, em minhas pesquisas, vem recebendo também uma organizada e grosseira crítica em sua página no Facebook, logo após seu voto a favor da abertura do processo de impeachment. Foi vergonhoso e vexatório o comportamento de alunos e professores universitários, que, infelizmente, não aprenderam a participar de um debate democrático. Resultado: alegando razões de falta de segurança, a equipe do senador optou por não comparecer novamente ao local para o lançamento do livro. 


Além do que ocorre com o senador Buarque, nas redes sociais, os outros dois exemplos acima geraram muita polarização, como também ocorre (já mencionado) em relação às três recentes exposições.

Eu, particularmente, mesmo tendo uma posição não ideológica em meus comentários e postagens na rede social, já sofri tentativas de censura de ambos os ramos da patrulha radical. E, não me curvando a essas, amizades virtuais foram desfeitas (de forma unilateral, pelo amigo ou amiga virtual) e até relacionamentos pessoais sofreram abalos. Mesmo que eu respeitasse o direito de opinião de outras pessoas, o meu teria que concordar com o delas. Comentários contrários em ‘posts’, segundo uma amiga, não faziam parte das ‘regras de convivência do Facebook’. Ou seja, em um texto ou link seu, são apenas bons os comentários que sejam a favor deste. Raso demais. Por mais patrulha que possa existir, minha liberdade de opinião me é muito cara. Minha alma fica em paz.

Algumas conclusões:
Para mim, o tom vai abaixar daqui a pouco, quando a política esquentar mais ainda.
Creio que alguns grupos de ‘extrema direita’, maiores responsáveis pela agressividade contra as exposições, e que ainda tinham alguma credibilidade junto a uma parcela significativa de conservadores moderados, deram um tiro no pé. Esses jornalecos de 5ª. categoria perderam ponto com muitos seguidores que vêm a arte como algo ‘sagrado’, muito importante para a democracia. Em alguns anos, entrarão para o anonimato, como entrou o TFP (hein?). Vão fazer companhia aos grupos midiáticos de ‘extrema esquerda’ que, sem a injeção de dinheiro que recebiam dos governos anteriores ao atual, estão rapidamente perdendo sua penetração na sociedade.
Concordo com a opinião do internauta Francisco Pinheiro, lida no programa Estúdio i, da GloboNews, em 29 de setembro passado: ‘A arte sempre é alvo quando a democracia não anda bem’.
Faz falta hoje em dia figuras esquecidas pela pouca memória do brasileiro, como o multimeios Carlos Imperial, que sempre me recordo como compositor (com Ataulfo Alves) de ‘Você Passa, Eu Acho Graça’ (originalmente interpretada por Clara Nunes), que, em casos de polêmicas como essa, costumava esculhambar com o moralismo, sem ficar com discurso politicamente correto, pois estava sempre à frente de seu tempo.
As obras, infelizmente, não estão gerando polêmicas por serem ou não criativas e sim pela sua viabilidade ou não. O assunto é a censura.

Gostaria de concluir com a observação de uma amiga, Márcia Soares, que, indignada com a censura sofrida pela exposição em Porto alegre, comentou algo como: ‘queria ver esses censores fazendo uma excursão por exposições na Europa!’. É claro que, mesmo no velho continente, vez ou outra há uma polêmica sobre obras também, como o recente cancelamento da montagem de uma escultura pela direção do Louvre. Mas são fatos isolados dentro do vasto e sempre efervescente mundo das exposições europeias. Creio que se a imprensa local escrevesse algum artigo sobre a visita sugerida pela minha amiga, diria: ‘Caipiras brasileiros visitam exposições na Europa!’

Fiquem agora com pequeno trecho do programa Estúdio i, da GloboNews, de 29 de setembro passado. Nele, o sempre equilibrado jornalista Marcelo Lins se posiciona em relação ao tema, após a polêmica da exposição no MAM-SP.

Obrigado pela leitura de minhas palavras e paz no coração.