domingo, 15 de outubro de 2017

Censura, Arma do Extremismo





Nesse texto eu não me aprofundarei no assunto ‘arte contemporânea’, pois não é relevante aqui dizer se obras presentes nas recentes exposições que geraram polêmica no Brasil são fruto de inspiração e genialidade ou provocação de mau gosto. Também não escreverei sobre como as leis de incentivo privilegiaram muitas manifestações artísticas nos últimos anos, catapultando artistas próximos ao grupo ideológico que controlava as aprovações ou não dos projetos apresentados. Também não será assunto desse texto descrever e comentar a inegável carolice ainda enraizada em nosso país, que é facilmente observada na quantidade enorme de pessoas sexualmente reprimidas que tratam o tema ‘arte’ como se ainda estivéssemos na Era Vitoriana (Reino Unido, Sec. XIX).

O assunto sobre o qual quero escrever é, para mim, o que é essencial nesse momento: censura e liberdade de criação e opinião.

Começo minha exposição citando trecho de um depoimento muito emotivo, da atriz Fernanda Montenegro, que sempre exprime sua opinião com muito discernimento: ‘Tudo é cultura, inclusive a cultura de repressão. Mas só há um tipo de cultura que realmente constrói um país: é a cultura da liberdade. A cultura liberta, cria alma de uma nação.’




Minha geração se iniciou quando a censura em nosso país estava em seus momentos mais terríveis e ridículos também, dentro da ditadura militar (1964-1985). Houve censura em vários outros momentos de nossa capenga república. Mas eu só os conheci em livros de história.

Ela chegava até nós, crianças, de outro modo. Algo como: ‘Isso não pode ser dito!’. Um momento que ainda me recordo, e sobre ele gostaria de me aprofundar mais em um texto sobre ditadura, foi quando meu pai se despediu de mim em um dos meus primeiros dias de escola. Possivelmente 1974 ou 75, com Geisel ou Médici na presidência. Papai tinha jeito com criança. Mas quando a coisa era muito séria, ele conversava conosco como se fôssemos adultos, mesmo que não entendêssemos nada. Era seu jeito de tentar fixar algo em nossas cabecinhas, meio no desespero. E ele me ordenou, com mais ou menos essas palavras: ‘Caso perguntem se seu pai critica o presidente, não diga nada, sim?’.
Para meu pai não tinha essa de esquerda ou direita. Devia ‘meter o pau’ no governo militar e na repressão em conversas íntimas, mesmo sem defender PCs, lutas armadas e outras idiotices. Extremismos não faziam parte de sua agenda. Como um cidadão honesto, trabalhador, pai de família, devia ter prudência para não atiçar os órgãos repressores, com seus tentáculos espalhados por todo canto. Experiente, inteligente, sabia que se houvesse algum amiguinho da escola cujo pai era investigador da polícia civil, este podia querer saber o que meu pai tinha falado. Com tortura ou, no mínimo, humilhações.

Não havia direito de dar opinião sobre muitas coisas. Isto se chama censura. Sabemos hoje quão ignorantes eram os censores, responsáveis por ‘capar’ ou proibir um texto, um disco, um livro, uma obra de arte, uma novela, um artigo de jornal ou qualquer coisa pública.



Foto do Conselho de segurança nacional que aprovou o Ato Institucional nº5, em 13 de dezembro de 1968, que oficializou a ditadura no Brasil e institucionalizou a censura e a opressão por parte do Estado.

E, para neutralizar a horrível foto acima, publico também a mais linda das imagens da marcha contra a ditadura e a censura, ocorrida no dia 26 de junho de 1968 (Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro). Na foto, as atrizes Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell lideram um grupo durante o protesto.




Bem, mas a censura não ocorre só em ditaduras ditas de ‘direita’. Também é uma arma importante das ditaduras ditas de ‘esquerda’. A repressão à opinião contrária à oligarquia governamental, às suas atitudes e ações não é ‘privilégio’ dos extremistas classificados como ‘esquerda’ ou ‘direita’. Como querem se manter no poder a qualquer custo, lançam mão dessa poderosa arma para silenciar qualquer forma de oposição.

Por isso, os governos extremistas nunca investem em uma educação que seja livre de caráter ideológico. Cuba, por exemplo, é dominada há décadas por uma oligarquia ditatorial. Dizer que lá não há analfabetos e que as pessoas tem educação gratuita é muito raso. Essa afirmação deveria estar acompanhada do complemento de que toda criança nessa ilha sofre lavagem cerebral ideológica desde a primeira infância.



Ex-lideres e um líder atual de ditaduras de ‘esquerda’: Stalin, Mao Tse Tung, Fidel Castro e Kim Jong-Un


Eu digo por mim mesmo, baseando-me no já citado regime militar brasileiro pós 64. Em plena ditadura, em nossas aulas da famosa ‘educação, moral e cívica’, eu tive que decorar todos os hinos militares do país. E sou capaz de cantar uma parte deles após cerca de 40 anos. E, como sempre gostei muito de música, nutria um prazer grande em cantar o da marinha. Há um conhecido daquela época que, na fase em que a presidente Dilma estava para cair, escreveu um ‘post’ afetuoso sobre as aulas de EMC em seu perfil no Facebook. Sofreu lavagem cerebral da tal ‘direita’. Para mim, só restou o Cisne Branco, felizmente.  

E também para neutralizar a imagem anterior, com tanta gente feia, posto fotos de líderes mundiais que lutaram e lutam pela paz e direitos de minorias: Martin Luther King, Dom Hélder Câmara, Thich Nhat Hanh e Papa Francisco.



Sobre as exposições que geraram polêmicas, o certo é que, contra elas, houve uma violenta manifestação via redes sociais e discussões provocadas nos espaços onde as mesmas ocorriam/ocorrem vindas de grupos reacionários com níveis diferentes de organização. Sempre citam o MBL, mas os primeiros manifestantes contra a exposição Queermuseu do Santander Cultural, em Porto Alegre, que a acusaram, histericamente, de pedofilia e zoofilia, nada têm a ver com esse grupo. Inclusive reclamaram que o tal grupo de ultra direita, já acusado de propagar ‘fake news’ sobre outros assuntos, apropriou-se indevidamente da ‘denúncia’ deles. É o porco falando mal do toucinho.



A exposição apresentava obras muito variadas, de diferentes épocas, algumas de artistas reconhecidos internacionalmente, como Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Lygia Clark e Pedro Américo. O fato é que, mesmo que a exposição tenha sido prematuramente encerrada, pela entidade responsável, a divulgação das obras aumentou muito, tendo elas sido inclusive projetadas em Museus de NY. É o efeito contrário, sempre presente nesses casos. Vale lembrar que promotores do Ministério Público atestaram que não havia incitação à pedofilia nas obras.


Durante o 35º Panorama de Arte Brasileira, tradicional exposição bienal no MAM, ocorreu a performance do coreógrafo Wagner Schwartz, que estava nu. A polêmica foi causada pela interação de uma criança com o artista, tocando o corpo do sujeito, nas mãos e nos pés. Uma reação agressiva ‘viralizou’ nas redes sociais. O MAM, em nota divulgada no Facebook, ressaltou que a criança estava acompanhada da mãe e que a sala onde ocorria a performance estava '’devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística'’. O museu também garantiu que o trabalho, intitulado La bête (a besta, em francês), não tinha qualquer conteúdo erótico. Organizações de ultra direita e esquerda radical travaram suas tradicionais batalhas virtuais.  Não é meu interesse aqui exprimir opinião sobre a qualidade das obras, como já disse. Claramente me coloco a favor da liberdade de exposição das mesmas. Mas há realmente que se coloque que, como temos o Estatuto da Criança e do Adolescente e nos referimos a ele como avançado para a proteção aos menores de idade, ele deve ser considerado em relação à presença de crianças nas chamadas ‘performances artísticas’ que incluem nus. Como? Lendo e interpretando corretamente o mesmo.


Em Belo Horizonte, onde moro, também houve confusão. E aqui, apesar de debates físicos e virtuais, a exposição “Faça Você Mesmo Sua Capela Sistina”, do artista Pedro Moraleida, no Palácio das Artes, começou a receber o triplo de visitantes após o apoio da classe artística, que se mobilizou, e do prefeito Alexandre Kalil que, com seu jeito direto e prático de se expressar, resumiu bem: ‘Aqui é local adequado. Isso aqui é uma galeria de arte. Você pode gostar ou não gostar. Vir ou não vir’. Incrível! Na provinciana BH a exposição não foi fechada!


Religiosos também quiseram dar seu ‘pitaco’ sobre o assunto, mesmo com conhecimento limitadíssimo do que seja arte. Revoltada com essa ‘interferência’, uma conhecida, renomada artista mineira, iniciou um texto escrevendo que ‘Igreja é lugar de religioso. Galerias e Museus são lugares do artista’. Apesar de entender até o sentido que ela quis dizer, creio que ela foi, de certa forma, infeliz, como lembrou um amigo desta em um comentário no ‘post’, escrevendo que igrejas são lugares em que a arte está muito presente.

Particularmente acho que todo mundo tem direito de opinar sobre o que quiser, dizer que gosta ou não gosta disso ou daquilo, sob seu ponto de vista. O que não é bom é gerar uma situação agressiva e opressora. Atitudes que levam à censura são perigosas para uma sociedade ainda desequilibrada como a nossa.

O já citado efeito contrário ao desejado pelos críticos, que almejam a censura, é lugar presente. Um dos clássicos exemplos internacionais é o selo ‘Parental Advisory’, adotado pela Recording Industry Association of America (RIAA) em 1985 e, em 2011, pela British Phonographic Industry (BPI). Mary "Tipper" Gore, ex-esposa do 45º Vice Presidente americano, Al Gore, é comumente creditada pelos principais movimentos que levaram ao selo Parental Advisory. Mas, desde sua introdução, tem havido questionamentos em relação à efetividade do selo. Dizem que os artistas se beneficiam da etiqueta. Os ouvintes jovens interessados em conteúdo explícito podem encontrá-lo mais facilmente com a indicação. Lembrando que, nos Estados Unidos, a 1ª. Emenda à Constituição protege completamente o direito de expressão dos cidadãos americanos. Curiosamente, apesar desse radicalismo de ‘Tipper’ Gore, que foi motivado por razões familiares, ela é ativista pelos direitos de minorias, incluindo os dos LGBT.


Um fato curioso que observei pela movimentação nas redes sociais, que fornecem farto material para minhas pesquisas, é a polarização não política nesse caso. Enquanto existia aquela discussão entre antipetistas e anti antipetistas (antes do PMDB passar a perna nos dois), via-se um dualismo puramente ideológico e retrógado. Agora não. Pessoas que não fazem parte dos grupos chamados de esquerda, mas que são defensores das manifestações artísticas e/ou dos direitos LGTB, estão, obviamente, contrários aos grupos chamados de ‘extrema direita’. Mas não se alinham à chamada ‘esquerda cultural’, pois esta também tem seus podres. E que podres.

Sempre me lembro de fatos que ocorreram no passado para relacioná-los com o presente, pois sou um viajante no tempo. O filósofo Luiz Felipe Pondé, também polêmico, conseguiu resumir muito bem o que penso: ‘Do ponto de vista da esquerda cultural, falando do ponto de vista da liberdade de expressão, a gente sabe que a esquerda cultural não tem nenhuma moral para falar da liberdade de expressão. Na verdade, o maior número de casos de busca de censura, nos últimos tempos no país, veio justamente da esquerda cultural, e os seus discursos que visavam o que se chama de politicamente correto.’

Dois exemplos ficaram bem claros para mim nos últimos tempos. Eu não poderia me esquecer do que aconteceu com Yoani Sánchez, blogueira cubana que enfrentou todo tipo de protestos em sua visita ao Brasil em 2013. A moça, de hábitos simples, que viveu toda sua vida em uma Cuba estacionada no tempo há mais de 50 anos, teve imensa dificuldade em sair do país para vir ao Brasil, mesmo recebendo convites para eventos culturais e debates. Chegando aqui, houve uma barbárie. Foi recebida com protestos nos aeroportos, com cartazes ofensivos, gritos pró-Cuba, chamando-a de ‘mercenária’, ‘agente da CIA’, jogando cópias de dólares nela, dentre outras bobagens. Mas ela também recebeu carinho dos brasileiros, é claro, como podemos ver na 1a. foto (abaixo), à esquerda.


Yoani, que teve seus cabelos puxados por um dos manifestantes, creio que em Salvador, foi também impedida de continuar um debate na Livraria Cultura de SP.



Bem, vi muitos manifestantes da extrema 'esquerda', nas redes sociais, reclamarem que museus e galerias são espaços para exposições. Sim, concordo. E livrarias são espaços para gritos e censura? Yoni só comentou: ‘Eles gritam porque não tem argumentos’. Na foto seguinte o cartaz ‘Fale, Yoni, Fale!’ e outro de Porto Alegre: ‘Censura = Morte’.



O segundo caso que gostaria de incluir é o da autorização de biografias. Foi uma batalha que levou anos para ser finalizada quando, em junho de 2015, o STF liberou, por decisão unânime, biografias publicadas em livros, revistas e novelas. Os ministros destacaram que abusos podem levar a medidas de reparação, o que é justo, claro.

O grupo ‘Procure Saber’, dirigido por Flávia Lavigne, empresária e ex-esposa de Caetano Veloso, foi responsável pelo ‘lobby’ contra as chamadas ‘biografias não autorizadas’. O grupo incluía, além de Caetano, Chico Buarque, Gilberto Gil, Roberto Carlos e Djavan. Os três primeiros são conhecidos militantes da esquerda cultural. Flávia e seu pessoal foram acusados por diversos escritores e jornalistas de querer praticar censura prévia. Perdeu. E, curiosamente, o Sr. Caetano Veloso, incoerente e ávido por uma mídia, aparece agora defendo as artes e se mostrando contra a censura das manifestações artísticas.



Para complementar, vale lembrar a visita, em 18 de julho de 2017, do senador Cristovam Buarque (PPS-DF) à UFMG, para participar de uma palestra e lançar seu livro 'Mediterrâneos Invisíveis'. Após a palestra, quando deixava o local para almoçar, o senador foi seguido por alunos e professores da universidade e de outras entidades de ensino superior presentes ao evento do dia, que o hostilizaram, o chamando de ‘golpista’ e ‘traidor’. Ora, Cristovam é um homem educado, moderado, pacífico. Tem uma biografia respeitada e não compactua com ideias radicais como volta de ditadura, diminuição de direitos de minorias e outros assuntos retrógrados que são ventilados por reacionários intolerantes. Tampouco participa do governo atual e já fez duras críticas ao presidente Temer e aliados. Como ele votou a favor do impeachment da presidente Dilma, estava e está sujeito a críticas pelos defensores dela, é claro. Mas tudo dentro do respeito que ele certamente merece. Como pude constatar, em minhas pesquisas, vem recebendo também uma organizada e grosseira crítica em sua página no Facebook, logo após seu voto a favor da abertura do processo de impeachment. Foi vergonhoso e vexatório o comportamento de alunos e professores universitários, que, infelizmente, não aprenderam a participar de um debate democrático. Resultado: alegando razões de falta de segurança, a equipe do senador optou por não comparecer novamente ao local para o lançamento do livro. 


Além do que ocorre com o senador Buarque, nas redes sociais, os outros dois exemplos acima geraram muita polarização, como também ocorre (já mencionado) em relação às três recentes exposições.

Eu, particularmente, mesmo tendo uma posição não ideológica em meus comentários e postagens na rede social, já sofri tentativas de censura de ambos os ramos da patrulha radical. E, não me curvando a essas, amizades virtuais foram desfeitas (de forma unilateral, pelo amigo ou amiga virtual) e até relacionamentos pessoais sofreram abalos. Mesmo que eu respeitasse o direito de opinião de outras pessoas, o meu teria que concordar com o delas. Comentários contrários em ‘posts’, segundo uma amiga, não faziam parte das ‘regras de convivência do Facebook’. Ou seja, em um texto ou link seu, são apenas bons os comentários que sejam a favor deste. Raso demais. Por mais patrulha que possa existir, minha liberdade de opinião me é muito cara. Minha alma fica em paz.

Algumas conclusões:
Para mim, o tom vai abaixar daqui a pouco, quando a política esquentar mais ainda.
Creio que alguns grupos de ‘extrema direita’, maiores responsáveis pela agressividade contra as exposições, e que ainda tinham alguma credibilidade junto a uma parcela significativa de conservadores moderados, deram um tiro no pé. Esses jornalecos de 5ª. categoria perderam ponto com muitos seguidores que vêm a arte como algo ‘sagrado’, muito importante para a democracia. Em alguns anos, entrarão para o anonimato, como entrou o TFP (hein?). Vão fazer companhia aos grupos midiáticos de ‘extrema esquerda’ que, sem a injeção de dinheiro que recebiam dos governos anteriores ao atual, estão rapidamente perdendo sua penetração na sociedade.
Concordo com a opinião do internauta Francisco Pinheiro, lida no programa Estúdio i, da GloboNews, em 29 de setembro passado: ‘A arte sempre é alvo quando a democracia não anda bem’.
Faz falta hoje em dia figuras esquecidas pela pouca memória do brasileiro, como o multimeios Carlos Imperial, que sempre me recordo como compositor (com Ataulfo Alves) de ‘Você Passa, Eu Acho Graça’ (originalmente interpretada por Clara Nunes), que, em casos de polêmicas como essa, costumava esculhambar com o moralismo, sem ficar com discurso politicamente correto, pois estava sempre à frente de seu tempo.
As obras, infelizmente, não estão gerando polêmicas por serem ou não criativas e sim pela sua viabilidade ou não. O assunto é a censura.

Gostaria de concluir com a observação de uma amiga, Márcia Soares, que, indignada com a censura sofrida pela exposição em Porto alegre, comentou algo como: ‘queria ver esses censores fazendo uma excursão por exposições na Europa!’. É claro que, mesmo no velho continente, vez ou outra há uma polêmica sobre obras também, como o recente cancelamento da montagem de uma escultura pela direção do Louvre. Mas são fatos isolados dentro do vasto e sempre efervescente mundo das exposições europeias. Creio que se a imprensa local escrevesse algum artigo sobre a visita sugerida pela minha amiga, diria: ‘Caipiras brasileiros visitam exposições na Europa!’

Fiquem agora com pequeno trecho do programa Estúdio i, da GloboNews, de 29 de setembro passado. Nele, o sempre equilibrado jornalista Marcelo Lins se posiciona em relação ao tema, após a polêmica da exposição no MAM-SP.

Obrigado pela leitura de minhas palavras e paz no coração.


sábado, 8 de abril de 2017

Paco de Lucía - Concierto de Aranjuez (Rodrigo)


Há 25 anos, durante as comemorações dos 500 anos da união dos reinos que hoje conhecemos como Espanha, o extraordinário guitarrista flamenco Paco de Lucía se apresentou com a Orquesta (sem o 'r' mesmo) de Cadaqués, sob a regência de Edmon Colomer, executando o Concierto de Aranjuez, linda composição para guitarra (violão) e orquestra do compositor español Joaquín Rodrigo.

Rodrigo (1901-1999), que ficou praticamente cego aos 3 anos de idade como consequência de difteria, compôs muitas obras. Mas a que se tornou mundialmente famosa foi realmente o 'Concierto de Aranjuez', para 'Orquesta y Guitarra', escrito em 1939, em Paris, em homenagem aos jardins do 'Palacio Real de Aranjuez', a residência de primavera do Rei Felipe II  na segunda metade do século XVI. O Palacio foi posteriormente reconstruido no século XVIII por Fernando VI. Destacam-se as interpretações (com registros fonográficos e algumas também em vídeo) de Narciso Yepes, John Williams, do brasileiro Turibio Santos, além da de Paco de Lucía.

O segundo movimento, o Adagio, aqui apresentado, foi também adaptado para a música popular, com letra de Guy Bontempelli e entitulado 'Aranjuez, Mon Amour', alcançando enorme sucesso na voz de Richard Anthony, em 1967. Após esta adaptação, numerosas interpretações ou pequenas citações do belíssimo Adagio foram se multiplicando, com destaque para Amália Rodrigues, Sarah Brightman, Plácido Domingo, José Carreras, Montserrat Caballé, Milles Davis e Carlos Santana. Nesse movimento, como em todo concerto, há também belas melodias tocadas por instrumentos de sopro, com destaque para o corne inglês (da família do oboé), responsável pelo primeiro solo, após os acordes iniciais da guitarra.

Sobre Paco de Lucía há duas 'estórias' que escutei. A primeira quem me contou foi Warner Souto, meu professor de violão erudito, ainda nos anos 80. Segundo ele, para estudar e gravar o disco 'Paco de Lucía Interpreta a Manuel de Falla', de 1978, Paco, então um músico 'de ouvido' (e que ouvido!), havia estudado música. Segundo Warner, só seria possível gravar aquele disco com conhecimento teórico.

Bem, a segunda veio do Maestro Silvio Viegas, amigo de longa data, atualmente titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, que nem sei se lembra do 'causo'. De acordo com que contaram ao Silvio, e ele compartilhou comigo ainda nos anos 90, Paco havia 'tirado' (estudado) todo o Concerto 'de ouvido', escutando as gravações disponíveis.

Bem, como uma 'estória' confronta com a outra, eu acredito nas duas! E, como Paco, que infelizmente faleceu em 2014, ao 66 anos, não está aqui mais para nos explicar, o melhor é desfrutar da sua linda interpretação! 25 anos depois!


domingo, 2 de abril de 2017

Salsicha & Papelão; Frutas, Verduras & Venenos


Caros amigos,

Bombardeados fomos todos nós, via vários meios, sobre as irregularidades na industrialização da carne brasileira. Mesmo eu, que compenso o noticiário com as notícias amenas (ver texto com o mesmo título), ainda assim recebi uma carga grande, vinda de várias fontes. Bem, alguns dias depois, já temos noção de que, ou houve exageros dos denunciantes, talvez querendo louros semelhantes aos da lava jato, ou o 'establishment' nacional conseguiu dar uma abafada no caso, pois, ao se confirmar, a notícia iria ser uma bomba maior do que a que se tornou. A verdade é que o Brasil e o mundo dependem da produção de carne brasileira.

Bem, há uns 60 anos ou mais, meu pai (e, junto com ele, muito do que viriam a ser minhas células) foi visitar uma fabriqueta de salsichas de um amigo dele, a convite. Segundo papai, seu amigo ia mostrando os processos de fabricação, e ele, meu pai, ia ficando cada vez mais horrorizado. Em um dado momento, um funcionário perguntou ao dono: 'Ô chefe, onde ponho isso?'. Era, segundo meu pai, uma pequena pilha de papelão. O chefe olhou com certo desprezo, pois o empregado o havia interrompido, e disse: 'Põe na máquina!'. Na máquina de salsicha, é claro! Meu pai saiu da fábrica com um brinde, um pacote de salsichas. E o jogou no lixo quando chegou em casa. E evitava os embutidos. Eu até o vi comendo esses artigos em sua vida, mas muito poucas vezes. E sempre repetia a história para nós.

Já contei esse caso inúmeras vezes para amigos, sendo que alguns deles eram taxativos, dizendo: 'Isso não existe, é mentira!'. Infelizmente, para todos eles, sem nenhuma satisfação, afirmo nesse triste momento: 'Foi verdade!'. Não quero com isso dizer que os frigoríficos denunciados estão errados. Não cabe a mim julgá-los. Escrevo aqui sobre minhas observações pessoais em relação à produção e consumo de alimentos no Brasil e no mundo, atualmente, e um pouco sobre essa produção na história da humanidade.

Não sou apenas vegetariano, mas procuro consumir somente a carne necessária para suprir minhas necessidades de proteína. Gerar sofrimento desnecessário no abatimento de animais é parte da ignorância do ser humano, a única espécie com capacidade de raciocínio para equilibrar essa matança a um nível muito abaixo do atual. E, por sua ignorância, só aumenta e sofistica essa prática.

Em seu livro 'Pegando Fogo - Como Cozinhar Nos Tornou Humanos', o primatólogo britânico Richard Wrangham nos ensina, com muita propriedade, que 'Nós somos mais cozinheiros que carnívoros'. Precisamos cozinhar uma boa parte de nossos alimentos antes de consumi-los, sejamos nós vegetarianos ou carnívoros, ou os dois. Cito isso para já registrar uma moda que, felizmente, não pegou, a tal da 'comida crua'. Gerou uma porção de gente magra e anêmica, interrompendo até a capacidade de reprodução delas. Uma estupidez, pois é impossível atingir um nível de condição orgânica humana saudável ao tentar ser um macaco.

Mas, sobre ser vegetariano, sim, é possível suprir suas necessidades diárias somente com frutas, verduras, legumes e afins. Mas, ser vegetariano é uma opção a ser respeitada e não a ser imposta. Como disse, só consumo a carne que preciso para meu corpo e expliquei o porquê. E sempre brinco que, para ser vegetariano (e que dirá vegano), você tem que ser o Paul McCartney, que deve ter um cozinheiro particular e fornecedores escolhidos a dedo. Caso não seja sua situação, você tem que tomar uma boa parte do seu dia para completar sua dieta com o que seu organismo precisa. Senão, vai ter que tomar cápsulas de complementos alimentares, vendidas até pouco tempo (não sei se continua assim) em potes com rótulos semelhantes aos 'shakes' para 'bombados' de academia. Conheço vegetarianos pálidos e visivelmente desnutridos e/ou anêmicos. Mesmo os indianos, com milênios de experiência, têm problemas. Mas também conheço outros tantos que vão muito bem, obrigado. Estes são os que sabem como preparar seus alimentos adequadamente, desenvolvendo, inclusive, capacidade culinária. E, voltando algumas linhas acima, a má alimentação não é 'privilégio' somente de vegetarianos. Carnívoros exagerados, obviamente, também estão na lista, pois apresentam, normalmente, excesso de peso e níveis de colesterol ruim & outros agentes devastadores muito acima dos tolerados, entrando para a fila das UTIs e covas de cemitério.

Ter respeito pelos animais, lutar por uma situação menos estressante para os bichinhos em seus cárceres pré abate, buscar uma forma de morte menos dolorosa para eles, bem como reduzir a quantidade de consumo de carne, é um caminho a ser trilhado, pois, além de tudo, a produção exagerada de proteína animal gera uma devastação da natureza também. E é bom lembrar que, mesmo na cadeia de produção de vegetais, há sempre um animal envolvido na história, nem que seja o cavalo que o pequeno produtor usa para levar suas verduras até a feira. Há que se observar se o cavalo do sujeito está bem cuidado. Senão, não vale!

E a hipocrisia é reinante em jovens que, por moda (não são todos, é claro), se tornam vegetarianos (ou veganos) e continuam tratando seus pais como lixo (falo dos que têm esse péssimo hábito, é claro). Não adianta nada o discurso de 'respeito aos animais', se há desrespeito pelo 'bicho-homem', que, em muitos casos, continua 'bancando' o filhote.

Sobre a qualidade dos produtos, tema levantado nessas últimas semanas e muito discutido entre nós, há um caminho importante a seguir. E há que serem colocados alguns pontos que são pouco falados e debatidos.

Sim, orgânicos são diferentes, com inegável muito mais qualidade. Mas, por mais pura que a ideia seja, são alimentos também geneticamente modificados. Foram sendo transformados de forma lenta, ao longo dos séculos e milênios. Da mesma forma que um cachorrinho, desses pequenos, do tamanho de um sapato, é originado de um lobo, nossas maçãs e todas as outras frutas e os vegetais de hoje são completamente diferentes (normalmente mais doces e saborosos) do que os que levavam o mesmo nome cem anos atrás, que dirá dos existentes há três mil anos. Convivi com senhores e senhoras idosos que diziam que nossas frutas eram outras coisas. Pesquisas nos informam que não conseguiríamos tomar o vinho romano, de tão inaceitável seria ser seu gosto ao nosso atual paladar.

A diferença entre os chamados transgênicos é que nosso organismo foi se adaptando lentamente às 'antigas' mudanças ao longo dos séculos e, essas modificações atuais são muito agressivas e não deixam tempo para nossa adaptação, o que creio levar à moléstias graves para nosso organismo.

Então, o que fazer. Bem, o guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards, revelou, em sua autobiografia, que o segredo de sua longevidade era tratar seu corpo como um 'templo', usando apenas 'drogas de alta qualidade'. Como não sou consumidor de drogas e muito menos indico-as para ninguém, acho que o que vale, da sua certamente irônica frase, é o paralelo com os alimentos. Seja você vegetariano ou carnívoro, ou os dois, como eu, compre só coisa de boa procedência, seja orgânica ou não, se conseguir.

domingo, 19 de março de 2017

Muito Além do Rock'n'Roll


Como amplamente noticiado, Chuck Berry faleceu ontem, 18 de março de 2017, aos 90 anos.

Elvis era o branco que gostava de blues, a música dos negros mais pobres. E Chuck era o negro que gostava de country, a música dos brancos chamados, de forma pejorativa, de 'white trash', ou 'lixo branco'.

Pois bem, Chuck rompeu todas as dificuldades, com sua elegância, inteligência e carisma.

Politicamente incorreto foi, dentre os criadores brancos e negros do Rock'n'Roll, o mais puro compositor desse estilo, falando sempre de temas do cotidiano, o que refletia seu pragmatismo.

Morreu sem ter a noção correta de que influenciou profundamente nossa civilização.

Na música, além de criar o único estilo popular que é reproduzido pelos quatro cantos do mundo, ainda resgatou a figura do trovador medieval. Antes de Chuck, havia a clara separação entre compositor e cantor. Depois dele, tudo isso mudou.

Se você ainda torce o nariz para o Rock, desculpe amigo, está atrasado 60 anos. Jogue seus jeans e calças pretas apertadas pela janela. Não use roupas despojadas mais. Gírias descoladas, esqueça-as! O negro, ou gay, ao seu lado, na orquestra em que você toca, ou no escritório em que você trabalha, por exemplo, deveria ser, para você, uma ilusão. Também, depois do rock, ninguém precisa mais ser velho, só se quiser, e a liberdade é o maior presente que recebemos desse movimento.

E não são três acordes, é uma música de uma simplicidade complexa que, se você jamais tocou, não conseguirá tocar sem se dedicar. Para tocar Rock'n'Roll, com cordas dobradas, 'bends' e outras técnicas, além do improviso, tem que trabalhar pesado. Não é fácil!

Vindo de uma geração que acompanhou as bandas de Progressivo, Hard e Heavy Rock, sempre agradeci aos irmãos mais velhos de amigos e aos meus pais por me posicionarem em relação à genética do Rock. E, com muito espanto, até hoje fico boquiaberto com o fato de muitos amigos músicos, que tocam rock, não conhecerem o trabalho dos criadores do gênero.

Chuck se apresentou duas vezes em minha cidade, Belo Horizonte. Não me recordo por que motivo, mas não pude ir à primeira apresentação. E escutei, sobre ela, um comentário de um músico de BH, na televisão: 'Foi legal assistir àquele velhinho, todo animado, tocando!'. Achei que havia um certo desprezo em seu comentário. Bem, alguns anos depois, não perdi a segunda oportunidade! em 21 de agosto de 2009, perto de completar seus 83 anos, lá estava Chuck, não um 'velhinho', não mesmo! Coluna reta, carregando sua pesada guitarra no ombro, caminhando por todo o palco, deu umas agachadas e ainda fez um pouco da sua tradicional 'Duck Walk'. Show curto, mas suficiente! O homem estava alí, tocando sua guitarra e cantando seus clássicos!

Hoje gostaria de publicar uma profunda declaração de Chuck sobre o preconceito racial e sobre a liberdade de expressão, antes de seus dois concertos no Fox Theatre, em St. Louis, Missouri, para o VHS (hoje em DVD) Hail! Hail! Rock'n'Roll, de 1987.

E, na sequência, Roll Over Beethoven, para ficar com Chuck na sua máxima essência, comunicando a Keith Richards, que produziu o show, uma mudança de tom no meio da música, levando o 'Rolling Stone' ao desespero!

Você não morreu Chuck! Está em cada célula de nossa cultura e mudou nossa era para sempre!

Muito obrigado!!


O material foi utilizado somente com o objetivo de ilustrar uma mensagem e homenagear Chuck Berry.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Sabe O Que É Déjà-Vu?


Escrevo este texto para ser coerente com minha posição, que está afastada de ideologias de direita ou esquerda. Repudio atos que considero um atraso para nosso país, independente dos autores. É minha pequena contribuição para nossa evolução. Em 2016, no dia da nomeação do ex-presidente Lula para ministro, eu fui contra esta e considero o cancelamento da mesma um fato histórico positivo para nosso país. E, então, não posso concordar com a nomeação de Moreira Franco para o cargo de Ministro, agora em 2017. Aproveito para analisar também as polêmicas indicações de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes para ministros do STF.

A tradução do termo Déjà-Vu, em francês, quer dizer algo que não é novidade, ou seja, 'já visto'. E, de uma forma um pouco mais complexa, é aquela sensação que uma pessoa tem, ao ir a um local em que nunca esteve, de que já estivera ali antes. E a expressão pode ser usada também para sensações semelhantes em relação a textos 'que nunca leu', quadros e gravuras 'que nunca viu' ou pessoas 'que nunca encontrou'.

Mas voltemos à primeira explicação, a do dicionário Robert, para tentar entender o que acontece no Brasil. Parece que as situações, saem governos entram governos, continuam uma mesmice, uma banalidade só. Às vezes uma preocupação maior com a parte social, mas 'quebrando' a população pobre trabalhadora/empreendedora que está em ascensão por esforço próprio. E às vezes uma atitude mais equilibrada com a parte econômica, mas fortalecendo as desigualdades, tão evidentes em nosso país.

O que ocorreu nos últimos dias, só para ficarmos nas nomeações e indicações, é um clássico caso de Déjà-Vu! E mais fácil de compreender impossível!

Em outubro de 2009, com apenas 39 anos, José Antonio Dias Toffoli foi empossado no Supremo Tribunal Federal. Ligado até o osso com o governo vigente, sua indicação foi longe da ideal. Dentre outros cargos, foi consultor jurídico na Central Única dos Trabalhadores de 1993 a 1994, assessor jurídico da liderança do Partido dos Trabalhadores de 1995 a 2000 e atuou como advogado de três campanhas presidenciais de Lula da Silva, nas eleições de 1998, 2002 e 2006. Entre 2003 e 2005 foi subchefe para assuntos jurídicos da Casa Civil da Presidência da República, e, em 2007, foi nomeado por Lula para o cargo de Advogado Geral da União, permanecendo neste até 2009, quando foi indicado pelo mesmo presidente ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal. Uma série de polêmicas e acusações cercam a carreira desse senhor, antes e depois de sua posse. Além disso, o meio jurídico o considera um profissional sem notório saber, um advogado não muito preparado para cargos de mais responsabilidade. Sua situação para participar do julgamento do mensalão, segundo o ministro Marco Aurélio Mello, era 'delicada', pelo longo envolvimento pessoal e profissional com vários réus e, pasmem, com Roberta Rangel, sua namorada e advogada de acusados no processo!

Mas o pastelão nacional, entre os quatro casos apresentados neste, foi a nomeação, em 16 de março de 2016, pela presidente Dilma Rousseff, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil, substituindo Jaques Wagner. E também sua posse relâmpago, já no dia seguinte. Independente da legalidade ou ilegalidade de gravações liberadas pelo Juiz Sérgio Moro, o que 'atrapalhou' a posse de Lula, o fato é que a conversa entre Lula e Dilma, entre outras, é clara para qualquer pessoa com isenção. Ficou muito evidente a manobra para proteger Lula com o foro privilegiado, pois este estava pressionado pela justiça. Partidários do PT e demais 'esquerdas' reclamaram muito. O discurso desses ignorava totalmente o conteúdo dos áudios, como se o fato não tivesse importância. Segundo um amigo me disse há muito tempo: 'hoje em dia nem caipira é bobo mais!'

E aí vêm as notícias desse princípio de fevereiro de 2017. Uma repetição de práticas passadas.

Primeiro foi a nomeação, em 3 de fevereiro de 2017, pelo presidente Michel Temer, de Wellington Moreira Franco para ministro da Secretaria-Geral da Presidência. Em si o fato não teria nenhuma repercussão, já que Moreira Franco estava dentro do governo e sua nomeação somente oficializaria funções que já exercia. Mas a coisa não é tão simples assim. Tudo se deve à possível participação de Moreira em esquemas de corrupção delatados por Cláudio Melo Filho na Lava Jato. Então, a nomeação também serviria para proteger o político com o já citado foro privilegiado. Uma pequena batalha jurídica se travou para decidir a situação de Franco. Até o momento ele teve sua nomeação aprovada com a exigência da não elegibilidade ao foro privilegiado. Mas a decisão final está nas mãos de Celso de Mello.

E sobre a indicação, oficializada em 6 de fevereiro de 2017, de Alexandre de Moraes para ministro do Supremo Tribunal Federal, aos 48 anos de idade? Tem aparente melhor formação jurídica que Dias Toffoli, apesar de muitas polêmicas envolvendo suas obras, pois foi acusado de copiar trechos de livros de outros autores sem creditar as devidas autorias. Moraes também tem forte envolvimento político partidário, sendo filiado ao PSDB. Foi, de agosto de 2007 até 2010, Secretário Municipal de Transportes de São Paulo na gestão do prefeito Gilberto Kassab (então DEM) e Secretário de Estado Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, cargo que exerceu de dezembro de 2014 até 2016, na administração de Geraldo Alckmin (PSDB). Em maio de 2016, tornou-se Ministro da Justiça sob Michel Temer, que o indicou para o cargo de ministro do STF. Muitas polêmicas envolvem sua carreira. Creio que ele deveria ser mais discreto nesse momento e não participar de eventos como a tal "sabatina informal", ocorrida na chalana do senador Wilder Morais (PP-GO), com a presença de outros senadores, em 9 de fevereiro. A repercussão foi péssima! E, cá entre nós, há muitos juristas que são muito mais gabaritados que o senhor Alexandre de Moraes.

E vem a pergunta de alguns? E o FHC?

Em 2002, Fernando Henrique Cardoso indicou Gilmar Mendes para ministro do STF. Bem, em janeiro de 2000, Mendes fora nomeado advogado-geral da União por Cardoso. Fica o registro para aplacar alguns mais exaltados que sempre buscam casos semelhantes com o sociólogo acadêmico e pouco prático FHC.

Eu relato os fatos, rigorosamente pesquisados, além de observados, pois sou, como todos vocês, um viajante no tempo. O passado deve ser estudado para não repetirmos os mesmos erros, pois o momento presente é o único que existe. E temos que melhorá-lo.

domingo, 15 de janeiro de 2017

As Cinco Lembranças

Dedicado ao querido casal Patricia Marotta e Igor Colares, a seus filhos e aos amigos de Faculdade e da cena de Heavy Metal dos anos 80.

Estas são as cinco lembranças. Fazem parte da prática budista. A sugestão é que sejam repetidas todos os dias, como um mantra:
1) É da minha natureza o envelhecimento;
2) É da minha natureza a doença;
3) É da minha natureza a morte. Não há forma de escapar da morte;
4) Tudo que é querido para mim e todos que amo têm a natureza da mudança. Não há como escapar de ser separado deles.
5) Minhas ações são meus únicos pertences. Não há como escapar das consequências de minhas ações. Elas são a base na qual eu me sustento.

No sábado da semana passada, dia 7 de janeiro de 2017, pela manhã, recebi uma visita mais que especial: minha querida amiga Patricia Marotta e seu marido, Igor Colares, também um querido amigo. Patricia, eu e alguns amigos que estão na Web fizemos faculdade juntos e convivemos de forma muito agradável naqueles 4 anos, entre 1986 e 1989. Igor e eu, como vários amigos que também estão na Web, participamos da viva cena de Heavy Metal dos anos 80. Eu me lembro de ser um tempo mais tranquilo, menos veículos na rua, menos correria e menos pressão social.

Em 1987, há exatos 30 anos, pedi à Patricia, sempre com sua poderosa câmera fotográfica em mãos, para registrar um momento meu. É que eu iria cortar meus cabelos e começar a trabalhar formalmente (bem, existia alguma pressão social na época e muito preconceito, é claro). Então, ela tirou uma foto que ficou muito melhor que o modelo! E fica em um porta retratos desde então. Curiosamente, na época, creio que um pouco depois, Igor teve que cortar seus cabelos pelo mesmo motivo, como me contou na semana passada.

Há uns 20 anos eu reencontrei a Patricia em um concerto. Coincidentemente, o assento que eu comprei era ao lado do dela! Em outro dia, pouco depois do concerto, fui à sua casa e ela me deu muitas fotos e negativos de nossa passagem pela faculdade. Algum tempo depois, ela se casou com o Igor e, em alguns anos, eles mudaram para Curitiba.

Após minha entrada na rede social, alguns amigos de agora e de outrora rapidamente fizeram contato comigo. E eu também busquei alguns que estavam e/ou estiveram presentes em minha vida. Com muitos deles a comunicação é mais frequente. É o caso da minha amiga Patricia, pois recuperamos um pouco do dia-a-dia de outrora, mesmo que distantes e por meio digital.

E, para minha felicidade, recebi a visita do casal no sábado da semana passada, pois estavam em Belo Horizonte! E eu me lembrei da foto! E o casaquinho Adidas ainda existia, preservado para aquele momento!

E, após inúmeras outras fotos, com instrumentos musicais, Patricia e Igor produziram o 'setting' para mais um momento, 30 anos depois do primeiro. O mesmo modelo, a mesma blusinha de frio e a mesma fotógrafa!

Mas, pode vir uma pergunta à sua cabeça, caro amigo: 'Não há medo em seu coração, Ernesto? Você está muito mais velho. Sua franja já se foi! Os cabelos estão grisalhos! Seus olhos já não são mais os de um menino!'

E eu lhe respondo. Aprendi com as 'Cinco Lembranças', ensinamento da prática budista com que compartilho com o Igor. Com o aprendizado transmitido por elas, nossos temores se reduzem a pó, nossa alegria de viver aumenta e o respeito por nós mesmos e pelos seres que convivem conosco fica ainda maior.

E nos tornamos o que verdadeiramente sempre fomos, 'Viajantes no Tempo'!

Voltem sempre, caros amigos! E outros também!

Que todos os amigos tenham um ótimo domingo!

P.S. Agradeço à Rebecca Marotta por trabalhar o fundo das fotos de 2017 e ao meu irmão Alexandre por organizar esta produção e dar um toque final.