Caros amigos,
Uma vez um conhecido me disse que dentro de nós há dois dragões, um mau
e um bom. E ele continuou a 'estória', dizendo que sobrevive o que recebe
mais alimento.
Porém, creio ser esta uma visão muito pobre da realidade como-ela-é, na prática, no nosso dia-a-dia.
Em 6 de Outubro de 1966 foi ao ar, pela primeira vez, o 5º episódio da
primeira temporada da série Jornada nas Estrelas, com o título de 'O
Inimigo Interior'. Por um defeito no aparelho de teletransporte, duas
versões do personagem capitão Kirk foram transportadas de um planeta
para a nave. Uma delas era totalmente boa e a outra era totalmente má.
Para melhorar o episódio, o transporte da segunda versão do capitão foi
automático, sem testemunhas.
Para encurtar a 'estória' e não
cansá-los muito, no final das contas o 'mau' apareceu, em virtude de seu
comportamento excessivamente agressivo e descontrolado. Mas o 'bom'
também tinha problemas, pois não conseguia tomar decisões, era muito
fraco.
Então, digo-lhes que somente com o equilíbrio, dentro de
nós, do que chamamos de 'bom' e 'mau', é possível o controle de nossa
mente, escapando do mundo das ilusões e libertando-a do devastador
dualismo.
Em outubro de 2005 tive a oportunidade de assistir à
palestra de Saikawa Roshi, Superior Geral da Escola Soto Zen Budista
para a América do Sul. Fui solicitado a transcrever o áudio da palestra,
para oferecê-la a todos os praticantes desta tradição budista no
Brasil.
O texto tem algumas citações da religião budista,
principalmente quando lembra passagens da vida do Buda histórico. Mas o
importante mesmo são os ensinamentos que estão ali, de uma forma simples
e profunda.
E ao se aproximar a data da palestra, realizada 11 anos atrás, gostaria de publicá-la aqui.
Gostaria também de agradecer ao meu amigo Willer Siqueira
que, na época, leu o texto traduzido e acrescentou alguns comentários
importantes para a melhor compreensão do mesmo. Seus comentários são
precedidos de seu nome.
Que tenham uma boa semana!
Ernesto
PALESTRA
Como conhecemos, o Budismo começou com Shakyamuni Budha, a cerca de 2.500 anos.
Quando ele começou a praticar, para solucionar o problema, ele começou a solucioná-lo na mente.
A maioria de nós, para solucionar os problemas do dia a dia, pensa, usa
o cérebro e soluciona os problemas. Shakyamuni Budha também tentou
solucionar os problemas mentalmente.
Mas o melhor caminho para
solucionar o problema do ‘eu’ não é solucioná-lo mentalmente. É claro
que a forma correta de solucionar problemas de ciência, matemática,
filosofia, é usando a atividade mental. Mas sobre o problema do ‘eu’
esta não é forma correta Ele não percebeu isso. E levou seis anos, mesmo
para Shakyamuni Budha.
Atividade mental precisa de linguagem e a
linguagem contém palavras e palavras representam dualismo. As palavras
precisam de: isto ou aquilo, direita ou esquerda, para cima ou para
baixo, do lado de dentro ou do lado de fora, eu ou os outros, parar ou
ir, sujeito ou objeto. Então as pessoas não duvidam a respeito da
linguagem, pois quando uma criança nasce e cresce, o que esta criança
aprende é este dualismo. Então, o que os seres humanos vêm fazendo por
milhares de anos é transmitir este dualismo para a criança. Quando a
criança se torna adulta, ela nunca duvidará do que escuta. Mas, esta
idéia, ‘direita e esquerda’, ‘para cima e para baixo’, ‘bom e ruim’, é
ilusão. É usada como uma ferramenta pela atividade mental. Por exemplo,
se eu disser que este é o ‘lado direito’, este é o ‘lado esquerdo’ para
vocês. Se eu disser que ‘para cima’ está nesta direção (apontando do
dedo para cima), todos neste quarto irão concordar que ‘para cima’ está
nesta direção. Mas esta direção é ‘para baixo’ para os japoneses que
vivem do outro lado do mundo. E todos os seres humanos concordarão que o
leste é para este lado e, de um outro lugar, leste é para a outra
direção.
[Neste momento, o Reverendo Saikawa se levanta e explica o dualismo no quadro, desenhando um globo.] E diz:
A Terra, para os brasileiros, está nesta direção. Ao mesmo tempo, para os japoneses, está na outra direção.
[Depois ele desenha vária setas saindo de várias partes do globo em direção ao espaço.] Ele diz:
Há somente ‘para cima’, não há para baixo. Então, mesmo ‘para cima’ não
existe. ‘Para cima’ precisa de ‘para baixo’. Ideias opostas. Para ‘para
cima’, o ‘para baixo’ é necessário. Para ‘a direita’, ‘a esquerda’ é
necessária. Para ‘o bem’, ‘o mal’ é necessário. (Ao tomar água) Se eu
disser que esta água é fria, dentro de mim ela está quente. ‘O bem’ e o
‘O mal’ também são o mesmo. As coisas que são boas para o presidente
Bush são ruins para (Saddam) Hussein. São somente ideias e a língua é
condicionante. Ilusoriamente criada no cérebro. Então, originalmente,
nada existe, não há ‘para cima / para baixo’, ‘direita / esquerda’, ‘bem
/ mal’. Mas as pessoas pensarão: ‘do lado de dentro’ e ‘do lado de
fora’ existem. O ‘eu’ e os outros existem. É muito difícil descobrir.
Isto também é ilusão no cérebro.
Shakyamuni Budha tentou
encontrar o verdadeiro ‘eu’ no zazen. Na última vez ele determinou que,
até atingir a iluminação, ele não se levantaria. Sob a árvore bodhi, no
sétimo dia, ele se tornou um só com a estrela que atingiu seus olhos.
Ele, no zazen, se esqueceu até mesmo de que estava lá, ele se esqueceu
que estava praticando zazen, totalmente concentrado em si mesmo, ele se
aprofundou cada vez mais e esqueceu-se de si mesmo. No oitavo dia, uma
estrela da manhã veio à sua vista, embaixo. E a luz da estrela da manhã
atingiu seus olhos. Então ele percebeu a unidade do ‘eu’ e dos outros,
‘sujeito / objeto’, ‘do lado de dentro’ / ‘do lado de fora’.
Nosso corpo, dos pés à cabeça, é feito de olhos, ouvidos, nariz, língua,
corpo e mente. É óbvio que os olhos enxergam coisas, os ouvidos escutam
sons, o nariz cheira, a língua sente, o corpo sente se está quente ou
frio e a mente pensa [Willer: o sentido é: a mente gera formações
mentais].
Shakiamuni Budha alcançou o ponto através dos olhos. Um
outro monge, Dogen, alcançou o ponto através dos ouvidos. Um outro
monge, através do cheio das flores. Um outro, através do sabor do chá.
Eles realmente compreenderam, eles realmente alcançaram a unidade com o
‘sujeito / objeto’.
[Neste momento o Rev. Saikawa bate na mesa
com a madeira, e pergunta:] Onde está este som?”. [Bate e pergunta
novamente:] Onde está este som? Aqui? [E responde:] Não. Em vocês. Então
vocês podem escutar.
[O Rev. Saikawa faz outras perguntas:]
Onde está o cheiro deste incenso? Este cheiro está na fumaça do incenso?
[E responde:] Não. Em vocês.
O gosto do chá não está no chá.
Quente e frio não estão nas coisas que estão aqui. Se você sente calor,
está em você. O mesmo acontece com este som [e bate com a madeira na
mesa]. É neste mundo de unidade que estamos vivendo. É nesta unidade [e
bate novamente com a madeira duas vezes na mesa] que estamos vivendo
neste mundo. Sem ‘do lado de dentro / do lado de fora’.
Mas a
mente pensa, o ‘eu’ aqui e os outros lá. A língua contém ‘eu, meu, mim, o
meu’ [N.T.: Usando a língua inglesa, o Rev. Saikawa utiliza o sujeito, o
objeto e duas formas de possessivo, enfatizando o ‘eu’]. E também
‘você, seu, de você’. Então, aquelas pessoas que não duvidam da língua,
tem dificuldade de entender a unidade da vida.
A linguagem contém
‘eu, meu, mim, o meu’ e as pessoas dizem: meu corpo. Este é meu corpo.
Meu corpo. E se eu expandir a ideia do ‘meu’, eu posso dizer: meu corpo,
meu quarto, minha casa, minha cidade, meu país, meu mundo, meu
universo. Então todo o universo se torna ‘meu’. Então, se eu reduzir a
ideia do ‘meu’, meu corpo, meu cérebro, minha mente e aquilo sentido que
eu estou pensando: isto é ‘meu’. Se eu expandir a idéia, todo o
universo será ‘meu’ e se eu reduzir a idéia, há somente onda elétrica.
É nesta unidade que estamos vivendo neste mundo. Nós nascemos, neste
mundo, nesta unidade. Somente no ponto da unidade é que vivemos neste
mundo. Quando eu existo [Saikawa bate novamente com a madeira na mesa], o
mundo existe. Quando o mundo existe, eu existo. Mas para aqueles que
estão presos à palavra ou à linguagem, é muito difícil de ver o
verdadeiro ‘eu’. O verdadeiro ‘eu’ não é uma coisa pequena. E ao mesmo
tempo, sem forma.
Retornando à iluminação de Shakyamuni Budha,
esta iluminação da unidade é herdada de professor para aluno e o aluno
se torna professor e assim este Dharma é continuamente herdado e
transmitido por 28 linhagens até Bodhidharma, que é o último patriarca
da Índia e o primeiro da China.
Dogen, que era Japonês, era um
gênio. É dito que, quando tinha 5 anos de idade, ele já tinha lido os
escritos de filosofia chineses. Mesmo tal gênio que estudava Budismo
não podia se satisfazer, porque ele tentava resolver o (problema do)
‘eu’ através da linguagem. Então ele teve que ir para a China para
buscar o verdadeiro ensinamento. Quando ele estava praticando zazen no
zendo, o monge perto dele estava dormindo. Seu professor, Rujing, tirou o
chinelo e bateu no ombro do monge que estava dormindo. E disse: não
durma!
Por meio daquele som, Dogen se tornou ‘um’ com todo o
universo. E ele se levantou e foi à sala do abade, oferecendo incenso, e
disse: “meu corpo e minha mente desapareceram’ ou ‘não são mais um
peso’ ” [o mestre usa o verbo ‘drop off’, que significa ‘desaparecer’ ou
‘reduzir a quantidade’]. Então ele se tornou ‘um’ com o universo. Então
Rujing disse: Está certo se tornar ‘um’ com o universo; mas, antes de
sua experiência, você era ‘um’ com todo o universo. Neste sentido,
Rujing disse: “Não que a mente e o corpo ‘desapareceram’, mas o corpo e a
mente ‘foram retirados’ desde o ‘início menos o princípio’ ” [ou seja,
sofreram a ação e não praticaram]. Dogen “diz: corpo e mente
‘desapareceram’”. Rujing disse: “corpo e mente ‘foram retirados’, no
sentido oposto. Isto significa: não é se tornar ‘um’ com todo o
universo. Se você perceber ou não, desde o princípio menos o início’,
‘um’ com todo o universo”. Dogen disse: “É verdade, é verdade. Sem minha
experiência, nós somos ‘um’ com todo o universo”.
Retornando a
Shakyamuni Budha, quando ele atingiu a iluminação, ele anunciou quão
maravilhoso, quão miraculoso, ele e terra atingirem simultaneamente a
iluminação. Isto significa que todo mundo é Budha. Todo mundo é Budha
quer dizer que não há delusão, não há iluminação. Delusão e iluminação
são ilusão da linguagem, da mesma forma que ‘direita / esquerda’, ‘para
cima e para baixo’ são ilusão. Então ele pôde perceber totalmente que
somente a atividade mental cria delusão, iluminação, ‘do lado de dentro /
do lado de fora’, ‘bem / mal’. Então Shakyamuni Budha se tornou
totalmente livre da rede que prendia as pessoas, que significa a
linguagem.
Da mesma forma que Shakyamuni Budha, Dogen se tornou
livre da linguagem. Então, quando ele retornou ao Japão, seu primeiro
anúncio foi semelhante a este: “Eu não pratiquei zazen em muitos dojos.
Então quando eu percebi, na casa de Rujing, percebi que o olho está na
horizontal e não na vertical. Isto significa, bem aqui e agora (batendo
na mesa com a madeira) é o nirvana. E eu voltei com mãos livres [N. T.:
vazias], sem nada. Não há Budismo, sem nenhum Budismo.” Porque ele ficou
totalmente livre da rede da linguagem. Então, mesmo o Budismo não
existe para a iluminação. Esta iluminação nós herdamos de professor
(mestre) para aluno (discípulo). Esta percepção nós estamos
transmitindo.
Não é muito difícil se eu explicar dessa forma,
‘direita / esquerda’, ‘para cima / para baixo’, ‘bem / mal’, ‘do lado de
dentro / do lado de fora’. É ilusão. É uma ferramenta da linguagem. É
fácil entender. Mas é difícil, mesmo para estudantes de zen para
perceber que o verdadeiro ‘eu’ não está da cabeça aos pés. É muito
difícil perceber que a vida e a morte também são uma ilusão da
linguagem. Da mesma forma que ‘direita / esquerda’ não existem. Então
precisamos praticar. Não compreensão mental. Os filósofos do Budismo
transformam as coisas simples em complicadas. Mas o zen as mostra de uma
forma direta, bem simples, para realmente ver a idéia de ilusão, de
iluminação que estão também no meio mental. Em outras palavras, em todo o
universo não existe ilusão, somente na mente humana. Se você realmente
perceber isto, você pode salvar a si próprio, através de você mesmo.
Então, no Budismo, especialmente no Zen Budismo, o caminho é perceber o
verdadeiro ‘eu’ e preservar o ‘eu’.
Quando eu fui a Florianópolis
e lá pratiquei zazen com as pessoas, nós conversamos depois no
restaurante e eu escutei que a religião no ocidente significa
‘reconectar-se’. Para o mundo japonês, religião é feita de dois
caracteres chineses, ‘chiu–kiu’ [N.T.: Ou ‘chiu-kio’. Não sei realmente a
forma correta de transcrever os caracteres]. ‘Chiu’ significa
realidade. E a realidade significa o verdadeiro ‘eu’. E ‘Kiu’ significa o
ensinamento para alcançar o caminho. Então ‘kiu’ não é um ensinamento
filosófico. Muito ativo. Forma ativa de alcançar o verdadeiro ‘eu’. Isto
é religião para o sentido japonês. Pois o que é a coisa mais importante
é se tornar livre de todas as coisas, e desfrutar essa vida. E
desfrutar junto com todos.
Então eu vim para este país para apreciar a vida junto com vocês e espalhar este ensinamento.
Muito Obrigado.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
Alguma Pergunta. Se eu puder responder.
Pergunta: Tudo tem um oposto: bem/mal etc. Qual é o oposto de Deus?
Rev. Saikawa: Na linguagem, eu não sei o oposto de Deus, mas qual é o oposto de Deus no ocidente?
Intervenção do Público: Inferno. O diabo. No ocidente, o oposto de Deus é o diabo.
Rev. Saikawa: Então Deus precisa do diabo. Da mesma forma que a
‘direita’ precisa da ‘esquerda’ e o ‘bem’ precisa do ‘mal’. Da mesma
forma Deus precisa do diabo. Então esta forma de pensar, no dualismo,
tenta resolver os problemas no dualismo. Mas o budismo não tenta
resolver o problema de forma dualística.
Pergunta: Eu gostaria que ele falasse um pouco mais sobre qual é o conceito de religião para o oriental.
Rev. Saikawa: ‘chiukio’ é religião em japonês. ‘Chiu’ é a origem, ou base, ou raiz. Muito profundo. É o significado do mundo.
Pergunta: Qual é o conceito de realidade?
Rev. Saikawa: O significado de realidade? É como isto...(Após beber
água) Isto é realidade. Isto é bom!!. A mente humana é tão inteligente,
que compara com as coisas do passado [Willer: o que está acontecendo no
presente. Este é o sentido]. Esta é a delusão. Por exemplo, ontem eu
estava tão alegre, tão engraçado e hoje eu estou mais retraído.
Comparando com a situação de hoje e de ontem. O passado não existe mais.
Mesmo o ‘aqui e agora’ (batendo com a madeira na mesa) nós não podemos
pegar. Se eu disser: eu ‘escutei’ este som (batendo novamente com a
madeira na mesa), ele já se tornou passado. Então esta inteligência é
que cria o dualismo, a delusão do ser humano. Compara. Coloca as coisas
do passado inseridas no presente na ‘mesma mesa’. Esta é a delusão. O
passado não existe mais. O futuro não existe mais. O ‘aqui e agora’
(batendo com a madeira na mesa). Somente o ‘aqui e agora’ existe.
Então...(bebendo água novamente)...Isto é bom!! Esta é a realidade. A
mais profunda parte do ensinamento.
O Rev. Saikawa se retira por alguns minutos. Após retornar, continua:
Quando eu uso a palavra ilusão, eu a uso na forma dualística de pensar,
que é criada na mente. Mas isto...(bebendo água novamente)...não é
ilusão. Então, muitas pessoas vivendo somente com forma dualística de
pensar, muitas ilusões no cérebro, se tornam muito presas nisto.
Pergunta: O que eu gostaria de saber, é: se você pensa em limão [N.T.: a fruta], quer dizer que não existe o limão?
Rev. Saikawa: A ilusão criando as condições dos corpos. Mas o sistema
do corpo do ser humano. Isto também está além do ‘bem / mal’.
Pergunta: Qual é a definição para religião em japonês?
Rev. Saikawa: A origem, a base. Então, qual é a base? A base não está
no lado de fora, porque todos os problemas criados nesta vida vêm daqui,
não é? [Willer: o Rev. Saikawa aponta para a sua própria cabeça que
simboliza a nossa mente, no sentido de - Mente Apenas - um conceito
budista muito usual na filosofia do Mahayana]. Então você tem que
verdadeiramente ver seu ‘eu’. É a forma de encontrar a solução para a
essência, para o significado deste mundo.
É claro que não estamos
falando de problemas sociais. Nós também temos que resolver os problemas
sociais, o tanto quanto for possível. Mas nós estamos falando dos
problemas que nós temos que liberar, ou temos que nos libertar de todos
os problemas e dor.
O ato de solucionar problemas sociais não é útil para quem está morrendo.
O ensinamento, mesmo para aqueles que estão morrendo agora, é
importante. É a forma de ensinar o verdadeiro ‘eu’ e se liberar dos seus
problemas.
Pergunta (Willer): O meu verdadeiro ‘eu’ é igual ao verdadeiro ‘eu’ do senhor?
Rev. Saikawa: Sim. Seu verdadeiro ‘eu’ é o verdadeiro ‘eu’ de todo
mundo, como uma bola de cristal espelhada*. Então, muitas centenas de
milhares de bolas de cristal espelhadas. O espelho não tem ‘eu’. Não
pensa ou escolhe. Não gosta ou desgosta. Então, o que quer que venha, o
espelho reflete, sem pensar ou escolher, sem preferência. Quando se vai,
vai. Os olhos são um espelho, para se tornar ‘um’ com estas coisas. Sem
o ‘eu’. Os ouvidos são o espelho do som (o Rev. Saikawa bate com a
madeira na mesa). Tudo que vem se torna ‘um’. Se este som é preferível
ou não (batendo com a madeira novamente), eles [os ouvidos] se tornam
‘um’ com ele. O espelho reflete o som. Quando o cheiro vem, se é
preferível ou não, o nariz se torna ‘um’ com o cheiro. Não há o ‘eu’
como espelho, refletindo este cheiro. A língua é o espelho para refletir
o gosto. Não há o ‘eu’. Sem preferência. O corpo é este espelho,
refletindo ‘quente e frio’, ‘áspero e macio’. Sem o ‘eu’, como um
espelho. O que quer que venha, se torna um com ele. Mas as pessoas podem
pensar que ‘a mente não é um espelho e que deve existir um ‘eu’ na
mente’. Mas a mente é também um espelho. A preferência não é criada pela
mente. Por exemplo, eu gosto mais de chá do que café. Quando eu era
pequeno, quando eu pela primeira vez bebi um bom chá, então eu comecei a
preferir o chá. As pessoas que preferem café, talvez se tornam ‘um’ no
momento que o examinam [Willer: cheirá-lo, tocá-lo, vê-lo,
bebê-lo]. Talvez tenham um namorado ou namorada e quando experimentam o
café, em determinado momento, se tornam apreciadores de café. A
preferência não vem da ‘essência’ do ‘eu’. Somente ‘condicionamento’.
Há uma história de um bebê que foi criado por lobos. Ele ou ela não
podia se tornar um ser humano como nós. A mente também é condicional.
Ela se torna ‘um’ com a causa e efeito.
Se o [presidente] Bush pegar
a mesma criança e criá-la na América, esta criança vai se tornar uma
profunda crente do cristianismo. A mente também é como um espelho. Não
há ‘eu’. Para tudo que vier, ela se torna ‘um’ com isto. Então, dos pés à
cabeça, todo o corpo é feito de causa e efeito. Isto é chamado dharma.
Então, tudo neste mundo é feito com o dharma. Então, todas as coisas,
todas as pessoas, é o corpo do dharma. Isto é chamado de Budha. Não há
iluminação, não há delusão. Além da delusão e da iluminação. O
entendimento, a percepção, o despertar de Shakyamuni Budha, é chamado
‘iluminação’. Então nesta ‘iluminação’ de Shakyamuni Budha, não há
‘iluminação’e não há ‘delusão’ também. Somente o que é.
Eu diria
novamente, todas as coisas neste mundo não possuem ‘iluminação’ ou
‘delusão’. Além da ‘iluminação’ ou da ‘delusão’. Somente a atividade
mental dos seres humanos que produzem ‘ilusão’ ou ‘iluminação’.
Se
eu me referir sobre o que eu falei de uma forma matemática, o ‘zero’ é
igual ao ‘infinito’. Mas é muito difícil de entender através da mente. O
‘zero’ é igual ao ‘infinito’ é a mesma coisa que dizer que o ‘preto’ é
igual ao ‘branco’. É muito difícil de entender. Impossível de
compreender porque a atividade mental precisa de ‘direita / esquerda’,
‘do lado de dentro / do lado de fora’. A atividade mental domina o
dualismo. Então o ‘branco’ é ‘preto’, o ‘zero’ é igual ao ‘infinito’.
Impossível de ‘agarrar’ com a atividade mental. Então é necessário
perceber através da prática.
Quando eu discursei em Porto Alegre,
uma pessoa me disse que ele sabia, que ele compreendia tudo o que eu
falei. Então eu perguntei a ele: Você está satisfeito com sua vida? E
ele respondeu: Não absolutamente. Então a compreensão verbal, ou dharma,
não pode atingir o ponto, porque a atividade mental está no dualismo.
Então nós precisamos praticar ‘zazen’, para realmente nos tornarmos um
com todas as coisas.
Há muitos pontos sobre Dogen Zenji. E há um
ponto que diz: “sem o ‘eu’, e sentado aqui, então a chuva cai sobre mim,
sobre mim mesmo”. Quando ele estava sentado em ‘zazen’ e havia a chuva,
o ponto estava feito. “Isto ‘sou eu mesmo’ ”. [o Reverendo bate com a
madeira na mesa três vezes]. Sem ‘delusão’, sem ‘do lado de dentro / do
lado de fora’, sem o ‘eu’ e os outros, totalmente ‘um’ com todo o
universo.
* [Willer: Esta imagem é uma referência a uma passagem
do sutra avatamsaka, onde foi descrito a imagem da Rede de Indra que
continha em seus pontos de união – suas malhas – jóias brilhantes que
refletiam tudo que estava a sua volta querendo com isso ensinar de forma
poética a natureza da interdependência – a infinita variedade de
interações e interseções de todas as coisas, pois cada joia contém todas
as outras, um importante dharma de Shakiamuni Buda. De acordo com este
dharma por exemplo: sempre que toco uma flor, toco no sol ainda que eu
não fique queimado. Quanto toco numa flor, toco a nuvem mesmo sem estar
voando pelo céu. Quando toco na flor, toco na minha consciência, na sua
consciência, e no grande planeta terra ao mesmo tempo. Isso é possível
graças a compreensão da inter-existência. Se você realmente toca uma
flor em profundidade, você toca o cosmos inteiro. O cosmos não é um nem
muitos, quando você toca um toca muitos e quando você toca muitos toca
um]
Pergunta: [N.T.: A pergunta foi feita sobre unidade, sobre o passado, porém não está compreensível]
Rev. Saikawa: No budismo, nós oferecemos coisas, não somente aos
ancestrais, mas também aos espíritos deste mundo, porque nós realmente
vemos a unidade; passado e presente são somente palavras. Então, quando
você oferece coisas aos ancestrais, você se torna ‘um’ com os
ancestrais. Sem ‘ilusão’, sem ‘do lado de dentro / do lado de fora’.
Por exemplo, na atividade mental, ‘luz’ e ‘trevas’, ou ‘dia’ e ‘noite’
são totalmente diferentes. Totalmente diferentes, como o ‘preto’ e o
‘branco’. Mas ninguém pode fazer um corte claro entre a ‘luz’ e as
‘trevas’, o ‘dia’ e a ‘noite’. Esta é uma coisa da divisão da mente.
O passado e o presente estão também aqui [o Reverendo bate com a madeira na mesa duas vezes].
Pergunta: [A pergunta, também um pouco incompreensível, é sobre o ‘presente’ e o ‘eu’].
Rev. Saikawa: Em português [o Reverendo fala em português], cada momento é novo.
Pergunta: Seria possível falar sobre o sentimento do medo.
Rev. Saikawa: O medo (temor) é a mesma coisa que a ‘sombra’ na mente.
Somente a onda da mente. Então quando os estudantes (praticantes) do
‘zen’ sentam em ‘zazen’, tudo o que vier, deixe vir; tudo o que for,
deixe ir. Não tente segurar, afastar para longe. Mesmo o (a) ? [N.T.:
não compreendi bem o que foi dito / Willer: sensação de prazer /
sensação agradável – acredito ser este o sentido], não tente segurá-lo
(a). Mesmo aquela memória, não tente afastá-la. Somente seja isto. Este é
o caminho para se alcançar realmente o ‘eu’ (Willer: o sentido é: este é
o caminho para se atingir, alcançar o verdadeiro eu)
Terminou? Tudo Bem?
Muito Obrigado
[O Rev. Saikawa faz uma prece e, após, diz:] Que suas vidas prossigam.