domingo, 15 de janeiro de 2017

As Cinco Lembranças

Dedicado ao querido casal Patricia Marotta e Igor Colares, a seus filhos e aos amigos de Faculdade e da cena de Heavy Metal dos anos 80.

Estas são as cinco lembranças. Fazem parte da prática budista. A sugestão é que sejam repetidas todos os dias, como um mantra:
1) É da minha natureza o envelhecimento;
2) É da minha natureza a doença;
3) É da minha natureza a morte. Não há forma de escapar da morte;
4) Tudo que é querido para mim e todos que amo têm a natureza da mudança. Não há como escapar de ser separado deles.
5) Minhas ações são meus únicos pertences. Não há como escapar das consequências de minhas ações. Elas são a base na qual eu me sustento.

No sábado da semana passada, dia 7 de janeiro de 2017, pela manhã, recebi uma visita mais que especial: minha querida amiga Patricia Marotta e seu marido, Igor Colares, também um querido amigo. Patricia, eu e alguns amigos que estão na Web fizemos faculdade juntos e convivemos de forma muito agradável naqueles 4 anos, entre 1986 e 1989. Igor e eu, como vários amigos que também estão na Web, participamos da viva cena de Heavy Metal dos anos 80. Eu me lembro de ser um tempo mais tranquilo, menos veículos na rua, menos correria e menos pressão social.

Em 1987, há exatos 30 anos, pedi à Patricia, sempre com sua poderosa câmera fotográfica em mãos, para registrar um momento meu. É que eu iria cortar meus cabelos e começar a trabalhar formalmente (bem, existia alguma pressão social na época e muito preconceito, é claro). Então, ela tirou uma foto que ficou muito melhor que o modelo! E fica em um porta retratos desde então. Curiosamente, na época, creio que um pouco depois, Igor teve que cortar seus cabelos pelo mesmo motivo, como me contou na semana passada.

Há uns 20 anos eu reencontrei a Patricia em um concerto. Coincidentemente, o assento que eu comprei era ao lado do dela! Em outro dia, pouco depois do concerto, fui à sua casa e ela me deu muitas fotos e negativos de nossa passagem pela faculdade. Algum tempo depois, ela se casou com o Igor e, em alguns anos, eles mudaram para Curitiba.

Após minha entrada na rede social, alguns amigos de agora e de outrora rapidamente fizeram contato comigo. E eu também busquei alguns que estavam e/ou estiveram presentes em minha vida. Com muitos deles a comunicação é mais frequente. É o caso da minha amiga Patricia, pois recuperamos um pouco do dia-a-dia de outrora, mesmo que distantes e por meio digital.

E, para minha felicidade, recebi a visita do casal no sábado da semana passada, pois estavam em Belo Horizonte! E eu me lembrei da foto! E o casaquinho Adidas ainda existia, preservado para aquele momento!

E, após inúmeras outras fotos, com instrumentos musicais, Patricia e Igor produziram o 'setting' para mais um momento, 30 anos depois do primeiro. O mesmo modelo, a mesma blusinha de frio e a mesma fotógrafa!

Mas, pode vir uma pergunta à sua cabeça, caro amigo: 'Não há medo em seu coração, Ernesto? Você está muito mais velho. Sua franja já se foi! Os cabelos estão grisalhos! Seus olhos já não são mais os de um menino!'

E eu lhe respondo. Aprendi com as 'Cinco Lembranças', ensinamento da prática budista com que compartilho com o Igor. Com o aprendizado transmitido por elas, nossos temores se reduzem a pó, nossa alegria de viver aumenta e o respeito por nós mesmos e pelos seres que convivem conosco fica ainda maior.

E nos tornamos o que verdadeiramente sempre fomos, 'Viajantes no Tempo'!

Voltem sempre, caros amigos! E outros também!

Que todos os amigos tenham um ótimo domingo!

P.S. Agradeço à Rebecca Marotta por trabalhar o fundo das fotos de 2017 e ao meu irmão Alexandre por organizar esta produção e dar um toque final.



sábado, 31 de dezembro de 2016

Pare! Tenha plena atenção! Feliz 31 de Dezembro de 2016!

Agradeço-lhes pela leitura de minhas palavras em 2016. Apesar de sempre fazer uma viagem ao passado, todos textos desta página estão ligados com o momento presente, pois este é o único que verdadeiramente existe. Um passado mítico e perfeito é irreal. O futuro, desconhecemos.

Mas, é claro, desejo a todos que 2017 seja um ano repleto de muita saúde, paz e prosperidade!

Abs,

Ernesto Abreu Valle


domingo, 11 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar, minha singela homenagem.

Sempre me protegendo do noticiário agressivo e repetitivo, que é ávido por telespectadores zumbis, não ligo muito a televisão para assistir aos telejornais. Mas gosto de saber das notícias. Sobre isso escrevi no meu texto 'Notícias Amenas' alguns meses atrás.

No domingo passado, no princípio da tarde, procurando saber do andamento das manifestações contra Calheiros, Congresso e outros, recebi pela televisão a triste notícia do falecimento de Ferreira Gullar.

Pouco li sobre isso nas redes sociais. A preocupação da maioria de seus participantes é sempre uma informação rasa, selfies desnecessários, funcionários públicos se mostrando em sua segunda ou terceira viagem internacional do ano, com o dinheiro nosso, pouco trabalho e sem medo de uma reação popular contra isso. Brigas intermináveis entre radicais de 'esquerda' e 'direita', com demonstrações de pouca inteligência, rancor, desconsideração para com os mais necessitados e valorização de ideologias furadas e de pouca prática.

Morria Ferreira Gullar. Falar de sua obra é tarefa difícil. De tão honesta, profunda e bela, as palavras me faltam. O discernimento que o poeta, tradutor, cronista, crítico de arte, artista plástico, dentre outras atividades, possuía era imbatível. Sua fala e escrita não eram dualistas, o que me fazia sentir cada vez mais atraído por suas opiniões. Tanta sabedoria parecia muita dentro de um só ser.

A dita 'esquerda' se sentia traída por ele, que já não se dizia mais marxista, pois, quando morou na URSS, se impressionou com a falta de iniciativa que o regime gerava nas pessoas, e era crítico dos governos do PT. A chamada 'direita' não se encantava com ele, pois Gullar continuava com posição firme contra o liberalismo econômico, criticando com firmeza sua ação devastadora quando não é controlado pelo estado.

Então, em um país de radicais, as redes sociais não se emocionaram com a morte de Gullar.

Mas aqui vai minha homenagem. Pessoa íntegra, honesta para consigo mesma e para com todos nós, não apegada a bens materiais. Rejeitou a tal 'bolsa ditadura' com veemência, dizendo que, 'como já era bem grandinho, sabia o que estava fazendo' quando lutou contra a ditadura militar, de forma pacífica, mas sofrendo da mesma forma que os que lutaram com armas. Era o verdadeiro socialista, pois sua gentileza o levou a, por exemplo, comprar um apartamento para sua empregada com parte do dinheiro de um prêmio literário.

Alto, magro, cabelos longos e sempre indignado com a dura realidade dos mais pobres em nossa sociedade. Gullar está entre as pessoas mais inteligentes que já escutei. Infelizmente não o conheci pessoalmente. Não teria sido só para uma foto. Seria para dizer 'Muito Obrigado!'.

Editei o vídeo em anexo, onde ele explica, com sua capacidade ímpar, o duelo dualista entre capitalismo selvagem e socialismo autoritário e sua fusão na China moderna.

Foi para além do mar, mas nos deixou de presente a sua infinita capacidade de sonhar!



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Deep Purple & George Harrison

1984. Após 8 anos sem nenhuma atividade, lá estava, de volta à ativa, o Deep Purple, uma das maiores referências em música, seja ela qual for, pois tem em seu repertório rock, blues, erudito, jazz, hard rock, dentre outras facetas dessa arte.
Em conheci a banda, que é de 1968, em um período em que ela não existia mais, por volta do final dos anos 70 e princípio dos anos 80, quando ainda criança. E, na minha adolescência, receber esse presente, foi algo mágico, auxiliado por alguns milhões de dólares que foram injetados nesse retorno, é claro.
Mas gostaria de me concentrar no dia 13 de dezembro de 1984. Algo raro, sob vários aspectos, aconteceu na, para mim, longínqua Austrália. George Harrison, que em muito poucas oportunidades se apresentou ao vivo, após os Beatles decidirem não tocar mais (apenas gravar discos), e mesmo em sua carreira solo (após o término dos Fab 4), se juntou ao Deep Purple para tocarem o clássico Lucille, do tresloucado Little Richard, um dos criadores do Rock.
Foi também uma das poucas oportunidades, que me recordo, em que músicos de ponta das duas primeiras gerações da 'British Invasion'* estiveram juntos em um palco. A outra foi nos shows de Paul McCartney no Cavern Club, após o disco 'Run Devil Run'. Talvez porque, em ambos os casos, os músicos da Segunda 'Invasão' já convivessem, principalmente em estúdio, com os da Primeira, durante os anos 60.
Uma alma iluminada registrou esse encontro em vídeo, possivelmente dos bastidores. Obrigado à ela!

*British Invasion: 'Invasão' de grupos ingleses de rock no mercado americano de música, durante os anos 60. Beatles, Rolling Stones, The Who e Moody Blues são os grandes expoentes desta. Eu considero mais duas bem claras 'Bristish Invasions': a segunda, durante os anos 70, com grupos de Hard Rock e Rock Progressivo, notadamente Deep Purple, Black Sabbath, Led Zeppelin, Uriah Heep, Nazareth, Pink Floyd, Yes, Genesis e ELP, citando os 8 mais famosos; e a terceira, durante os anos 80, tendo os grupos de Heavy Metal Iron Maiden, Judas Priest, Def Leppard e os Scorpions (apesarem de serem alemães, pegaram carona no jeito inglês de fazer rock) como seus maiores expoentes.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Eu Quero Sair Daqui e Tocar Minha Guitarra!

A primeira foto foi tirada pelo meu pai no longínquo 19...
Mas vou caminhar um pouco no tempo.
Quando eu tinha uns 10, 12 anos, recebi o resultado do ano escolar. Mesmo com muito sufoco, eu fui aprovado. Estudar era a única coisa que fazia, e, mesmo sendo um esforço, para minha mãe e meu pai, manter meu irmão e eu em bons colégios, não retribuíamos seu sacrifício. Sempre passei de ano, mas só comecei a dar o real valor após os 15 anos.
Bem, meu pai, depois de sair comigo e fazer a matrícula do ano seguinte, estacionou em um supermercado. E eu lhe disse alguma coisa como: 'Agora eu vou ficar uns 2 meses sem me preocupar com nada'. Ele, um mestre, nada respondeu, nem olhou para mim. Ali tive uma das minhas muitas 'pequenas grandes' iluminações. Apesar de nunca ter sido rico (longe disso), vivo em um país onde a maioria das pessoas nunca chegaram perto das mesmas oportunidades que tive. Consegui agradecê-lo em vida muitas vezes. E à minha mãe sempre agradeço.
Em vários momentos, quando sentados na biblioteca centenária onde leciono, meu pai me disse: 'Eu lhes deixarei esta casa e a instrução. A casa vocês podem vender e, com o tempo, perder o dinheiro. Mas a instrução, jamais perderão. Ninguém pode tirá-la de vocês!' E até hoje, mesmo em um país em que a cultura é desvalorizada, a instrução (e a educação que minha mãe e ele me deram) já me tiraram de difíceis situações. Também aprendi com ele a ser autodidata. E isso também sempre me ajudou.
Nesta semana da criança, agradeço muito a meus pais! Agradeço também por me transmitirem a alma musical. Mas sobre isso falarei em outro dia.
O bebê que já mexia seus dedos, louco pela música, é hoje uma pessoa de muitas atividades. Uma delas, guitarrista de uma banda de Rock. Há 28 anos, desde que comecei a trabalhar, as responsabilidades só aumentam. As cobranças são muitas. Mas o medo não habita em mim, pois sou um ser biológico de zilhões de anos e já passei por bons bocados e sobrevivi a todos eles!
A semelhança com o bebê: os cabelos, que voltaram a ser louros!
Bem, felicidades aos meus amigos que conseguem manter a criança dentro de si, aos seus filhos e aos amiguinhos e amiguinhas que ainda são crianças!
P.S. A segunda foto é de Jeová Guimarães! Felicidades para você e sua família, meu caro, e obrigado pela foto!

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O Menino de Azul


Vejo o quadro 'O Menino de Azul', pintado pelo inglês Thomas Gainsborough (1727-1788), todos os dias. Ou melhor, uma reprodução dele, que fica na sala de jantar de minha casa. É curioso o efeito hipnótico do quadro.
Para descrever como ele foi criado, peço ajuda ao meu xará, o escritor austríaco Ernst Josef Gombrich (1909 - 2001), autor do maravilhoso livro 'A História da Arte':
"É fascinante observar um artista esforçando-se por alcançar o equilíbrio adequado. Mas, se lhe perguntássemos porque fez isso e mudou aquilo, talvez ele fosse incapaz de nos explicar. O artista não obedece a regras fixas, ele simplesmente intui o caminho a seguir. É verdade que alguns artistas ou críticos, em certos períodos, tentaram formular leis para a sua arte; mas sempre se constatou que artistas medíocres não conseguiam nada quando tentavam aplicar essas leis, ao passo que os grandes artistas podiam desprezá-las e, ainda assim, conseguir uma nova espécie de harmonia em que ninguém pensara antes. Quando o grande pintor inglês Sir Joshua Reynolds explicou a seus alunos da Royal Academy que o azul não podia ser inserido no primeiro plano de uma pintura, mas reservado para fundos longínquos, para as colinas a se desvanecerem gradualmente no horizonte, seu rival Gainsborough - segundo reza a história - resolveu provar que tais regras acadêmicas eram usualmente absurdas. Pintou então o famoso 'O Menino de Azul', cujo traje azul, em primeiro plano e no centro do quadro, se destaca triunfantemente contra o cálido castanho do fundo."
Há uma frase muito importante, também de Gombrich, do mesmo livro, que completa sua explicação, podendo ser também transportada para nossa vida pessoal, nos ajudando a romper barreiras, abandonar verdades absolutas e nos oferecer a liberdade de ação:
"Todos nós alimentamos crenças que consideramos tão axiomáticas quantos os "primitivos" consideram as deles - usualmente a um ponto tal que delas nem nos conscientizamos, a menos que deparemos com gente que as questione."
Infelizmente, muitas vezes, a mente já está demasiadamente dominada e corrompida e é tarde demais.
Mas em outras tantas, felizmente, a recuperação é possível. E deve ser buscada para uma vida mais saudável.
Muita arte e inspiração para suas vidas!
Ernesto Abreu Valle

domingo, 25 de setembro de 2016

Domando Os 'Dois' Dragões Dentro de Nós

Caros amigos,
Uma vez um conhecido me disse que dentro de nós há dois dragões, um mau e um bom. E ele continuou a 'estória', dizendo que sobrevive o que recebe mais alimento.
Porém, creio ser esta uma visão muito pobre da realidade como-ela-é, na prática, no nosso dia-a-dia.
Em 6 de Outubro de 1966 foi ao ar, pela primeira vez, o 5º episódio da primeira temporada da série Jornada nas Estrelas, com o título de 'O Inimigo Interior'. Por um defeito no aparelho de teletransporte, duas versões do personagem capitão Kirk foram transportadas de um planeta para a nave. Uma delas era totalmente boa e a outra era totalmente má. Para melhorar o episódio, o transporte da segunda versão do capitão foi automático, sem testemunhas.
Para encurtar a 'estória' e não cansá-los muito, no final das contas o 'mau' apareceu, em virtude de seu comportamento excessivamente agressivo e descontrolado. Mas o 'bom' também tinha problemas, pois não conseguia tomar decisões, era muito fraco.
Então, digo-lhes que somente com o equilíbrio, dentro de nós, do que chamamos de 'bom' e 'mau', é possível o controle de nossa mente, escapando do mundo das ilusões e libertando-a do devastador dualismo.
Em outubro de 2005 tive a oportunidade de assistir à palestra de Saikawa Roshi, Superior Geral da Escola Soto Zen Budista para a América do Sul. Fui solicitado a transcrever o áudio da palestra, para oferecê-la a todos os praticantes desta tradição budista no Brasil.
O texto tem algumas citações da religião budista, principalmente quando lembra passagens da vida do Buda histórico. Mas o importante mesmo são os ensinamentos que estão ali, de uma forma simples e profunda.
E ao se aproximar a data da palestra, realizada 11 anos atrás, gostaria de publicá-la aqui.
Gostaria também de agradecer ao meu amigo Willer Siqueira que, na época, leu o texto traduzido e acrescentou alguns comentários importantes para a melhor compreensão do mesmo. Seus comentários são precedidos de seu nome.
Que tenham uma boa semana!
Ernesto
PALESTRA
Como conhecemos, o Budismo começou com Shakyamuni Budha, a cerca de 2.500 anos.
Quando ele começou a praticar, para solucionar o problema, ele começou a solucioná-lo na mente.
A maioria de nós, para solucionar os problemas do dia a dia, pensa, usa o cérebro e soluciona os problemas. Shakyamuni Budha também tentou solucionar os problemas mentalmente.
Mas o melhor caminho para solucionar o problema do ‘eu’ não é solucioná-lo mentalmente. É claro que a forma correta de solucionar problemas de ciência, matemática, filosofia, é usando a atividade mental. Mas sobre o problema do ‘eu’ esta não é forma correta Ele não percebeu isso. E levou seis anos, mesmo para Shakyamuni Budha.
Atividade mental precisa de linguagem e a linguagem contém palavras e palavras representam dualismo. As palavras precisam de: isto ou aquilo, direita ou esquerda, para cima ou para baixo, do lado de dentro ou do lado de fora, eu ou os outros, parar ou ir, sujeito ou objeto. Então as pessoas não duvidam a respeito da linguagem, pois quando uma criança nasce e cresce, o que esta criança aprende é este dualismo. Então, o que os seres humanos vêm fazendo por milhares de anos é transmitir este dualismo para a criança. Quando a criança se torna adulta, ela nunca duvidará do que escuta. Mas, esta idéia, ‘direita e esquerda’, ‘para cima e para baixo’, ‘bom e ruim’, é ilusão. É usada como uma ferramenta pela atividade mental. Por exemplo, se eu disser que este é o ‘lado direito’, este é o ‘lado esquerdo’ para vocês. Se eu disser que ‘para cima’ está nesta direção (apontando do dedo para cima), todos neste quarto irão concordar que ‘para cima’ está nesta direção. Mas esta direção é ‘para baixo’ para os japoneses que vivem do outro lado do mundo. E todos os seres humanos concordarão que o leste é para este lado e, de um outro lugar, leste é para a outra direção.
[Neste momento, o Reverendo Saikawa se levanta e explica o dualismo no quadro, desenhando um globo.] E diz:
A Terra, para os brasileiros, está nesta direção. Ao mesmo tempo, para os japoneses, está na outra direção.
[Depois ele desenha vária setas saindo de várias partes do globo em direção ao espaço.] Ele diz:
Há somente ‘para cima’, não há para baixo. Então, mesmo ‘para cima’ não existe. ‘Para cima’ precisa de ‘para baixo’. Ideias opostas. Para ‘para cima’, o ‘para baixo’ é necessário. Para ‘a direita’, ‘a esquerda’ é necessária. Para ‘o bem’, ‘o mal’ é necessário. (Ao tomar água) Se eu disser que esta água é fria, dentro de mim ela está quente. ‘O bem’ e o ‘O mal’ também são o mesmo. As coisas que são boas para o presidente Bush são ruins para (Saddam) Hussein. São somente ideias e a língua é condicionante. Ilusoriamente criada no cérebro. Então, originalmente, nada existe, não há ‘para cima / para baixo’, ‘direita / esquerda’, ‘bem / mal’. Mas as pessoas pensarão: ‘do lado de dentro’ e ‘do lado de fora’ existem. O ‘eu’ e os outros existem. É muito difícil descobrir. Isto também é ilusão no cérebro.
Shakyamuni Budha tentou encontrar o verdadeiro ‘eu’ no zazen. Na última vez ele determinou que, até atingir a iluminação, ele não se levantaria. Sob a árvore bodhi, no sétimo dia, ele se tornou um só com a estrela que atingiu seus olhos. Ele, no zazen, se esqueceu até mesmo de que estava lá, ele se esqueceu que estava praticando zazen, totalmente concentrado em si mesmo, ele se aprofundou cada vez mais e esqueceu-se de si mesmo. No oitavo dia, uma estrela da manhã veio à sua vista, embaixo. E a luz da estrela da manhã atingiu seus olhos. Então ele percebeu a unidade do ‘eu’ e dos outros, ‘sujeito / objeto’, ‘do lado de dentro’ / ‘do lado de fora’.
Nosso corpo, dos pés à cabeça, é feito de olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente. É óbvio que os olhos enxergam coisas, os ouvidos escutam sons, o nariz cheira, a língua sente, o corpo sente se está quente ou frio e a mente pensa [Willer: o sentido é: a mente gera formações mentais].
Shakiamuni Budha alcançou o ponto através dos olhos. Um outro monge, Dogen, alcançou o ponto através dos ouvidos. Um outro monge, através do cheio das flores. Um outro, através do sabor do chá. Eles realmente compreenderam, eles realmente alcançaram a unidade com o ‘sujeito / objeto’.
[Neste momento o Rev. Saikawa bate na mesa com a madeira, e pergunta:] Onde está este som?”. [Bate e pergunta novamente:] Onde está este som? Aqui? [E responde:] Não. Em vocês. Então vocês podem escutar.
[O Rev. Saikawa faz outras perguntas:] Onde está o cheiro deste incenso? Este cheiro está na fumaça do incenso? [E responde:] Não. Em vocês.
O gosto do chá não está no chá. Quente e frio não estão nas coisas que estão aqui. Se você sente calor, está em você. O mesmo acontece com este som [e bate com a madeira na mesa]. É neste mundo de unidade que estamos vivendo. É nesta unidade [e bate novamente com a madeira duas vezes na mesa] que estamos vivendo neste mundo. Sem ‘do lado de dentro / do lado de fora’.
Mas a mente pensa, o ‘eu’ aqui e os outros lá. A língua contém ‘eu, meu, mim, o meu’ [N.T.: Usando a língua inglesa, o Rev. Saikawa utiliza o sujeito, o objeto e duas formas de possessivo, enfatizando o ‘eu’]. E também ‘você, seu, de você’. Então, aquelas pessoas que não duvidam da língua, tem dificuldade de entender a unidade da vida.
A linguagem contém ‘eu, meu, mim, o meu’ e as pessoas dizem: meu corpo. Este é meu corpo. Meu corpo. E se eu expandir a ideia do ‘meu’, eu posso dizer: meu corpo, meu quarto, minha casa, minha cidade, meu país, meu mundo, meu universo. Então todo o universo se torna ‘meu’. Então, se eu reduzir a ideia do ‘meu’, meu corpo, meu cérebro, minha mente e aquilo sentido que eu estou pensando: isto é ‘meu’. Se eu expandir a idéia, todo o universo será ‘meu’ e se eu reduzir a idéia, há somente onda elétrica.
É nesta unidade que estamos vivendo neste mundo. Nós nascemos, neste mundo, nesta unidade. Somente no ponto da unidade é que vivemos neste mundo. Quando eu existo [Saikawa bate novamente com a madeira na mesa], o mundo existe. Quando o mundo existe, eu existo. Mas para aqueles que estão presos à palavra ou à linguagem, é muito difícil de ver o verdadeiro ‘eu’. O verdadeiro ‘eu’ não é uma coisa pequena. E ao mesmo tempo, sem forma.
Retornando à iluminação de Shakyamuni Budha, esta iluminação da unidade é herdada de professor para aluno e o aluno se torna professor e assim este Dharma é continuamente herdado e transmitido por 28 linhagens até Bodhidharma, que é o último patriarca da Índia e o primeiro da China.
Dogen, que era Japonês, era um gênio. É dito que, quando tinha 5 anos de idade, ele já tinha lido os escritos de filosofia chineses. Mesmo tal gênio que estudava Budismo não podia se satisfazer, porque ele tentava resolver o (problema do) ‘eu’ através da linguagem. Então ele teve que ir para a China para buscar o verdadeiro ensinamento. Quando ele estava praticando zazen no zendo, o monge perto dele estava dormindo. Seu professor, Rujing, tirou o chinelo e bateu no ombro do monge que estava dormindo. E disse: não durma!
Por meio daquele som, Dogen se tornou ‘um’ com todo o universo. E ele se levantou e foi à sala do abade, oferecendo incenso, e disse: “meu corpo e minha mente desapareceram’ ou ‘não são mais um peso’ ” [o mestre usa o verbo ‘drop off’, que significa ‘desaparecer’ ou ‘reduzir a quantidade’]. Então ele se tornou ‘um’ com o universo. Então Rujing disse: Está certo se tornar ‘um’ com o universo; mas, antes de sua experiência, você era ‘um’ com todo o universo. Neste sentido, Rujing disse: “Não que a mente e o corpo ‘desapareceram’, mas o corpo e a mente ‘foram retirados’ desde o ‘início menos o princípio’ ” [ou seja, sofreram a ação e não praticaram]. Dogen “diz: corpo e mente ‘desapareceram’”. Rujing disse: “corpo e mente ‘foram retirados’, no sentido oposto. Isto significa: não é se tornar ‘um’ com todo o universo. Se você perceber ou não, desde o princípio menos o início’, ‘um’ com todo o universo”. Dogen disse: “É verdade, é verdade. Sem minha experiência, nós somos ‘um’ com todo o universo”.
Retornando a Shakyamuni Budha, quando ele atingiu a iluminação, ele anunciou quão maravilhoso, quão miraculoso, ele e terra atingirem simultaneamente a iluminação. Isto significa que todo mundo é Budha. Todo mundo é Budha quer dizer que não há delusão, não há iluminação. Delusão e iluminação são ilusão da linguagem, da mesma forma que ‘direita / esquerda’, ‘para cima e para baixo’ são ilusão. Então ele pôde perceber totalmente que somente a atividade mental cria delusão, iluminação, ‘do lado de dentro / do lado de fora’, ‘bem / mal’. Então Shakyamuni Budha se tornou totalmente livre da rede que prendia as pessoas, que significa a linguagem.
Da mesma forma que Shakyamuni Budha, Dogen se tornou livre da linguagem. Então, quando ele retornou ao Japão, seu primeiro anúncio foi semelhante a este: “Eu não pratiquei zazen em muitos dojos. Então quando eu percebi, na casa de Rujing, percebi que o olho está na horizontal e não na vertical. Isto significa, bem aqui e agora (batendo na mesa com a madeira) é o nirvana. E eu voltei com mãos livres [N. T.: vazias], sem nada. Não há Budismo, sem nenhum Budismo.” Porque ele ficou totalmente livre da rede da linguagem. Então, mesmo o Budismo não existe para a iluminação. Esta iluminação nós herdamos de professor (mestre) para aluno (discípulo). Esta percepção nós estamos transmitindo.
Não é muito difícil se eu explicar dessa forma, ‘direita / esquerda’, ‘para cima / para baixo’, ‘bem / mal’, ‘do lado de dentro / do lado de fora’. É ilusão. É uma ferramenta da linguagem. É fácil entender. Mas é difícil, mesmo para estudantes de zen para perceber que o verdadeiro ‘eu’ não está da cabeça aos pés. É muito difícil perceber que a vida e a morte também são uma ilusão da linguagem. Da mesma forma que ‘direita / esquerda’ não existem. Então precisamos praticar. Não compreensão mental. Os filósofos do Budismo transformam as coisas simples em complicadas. Mas o zen as mostra de uma forma direta, bem simples, para realmente ver a idéia de ilusão, de iluminação que estão também no meio mental. Em outras palavras, em todo o universo não existe ilusão, somente na mente humana. Se você realmente perceber isto, você pode salvar a si próprio, através de você mesmo. Então, no Budismo, especialmente no Zen Budismo, o caminho é perceber o verdadeiro ‘eu’ e preservar o ‘eu’.
Quando eu fui a Florianópolis e lá pratiquei zazen com as pessoas, nós conversamos depois no restaurante e eu escutei que a religião no ocidente significa ‘reconectar-se’. Para o mundo japonês, religião é feita de dois caracteres chineses, ‘chiu–kiu’ [N.T.: Ou ‘chiu-kio’. Não sei realmente a forma correta de transcrever os caracteres]. ‘Chiu’ significa realidade. E a realidade significa o verdadeiro ‘eu’. E ‘Kiu’ significa o ensinamento para alcançar o caminho. Então ‘kiu’ não é um ensinamento filosófico. Muito ativo. Forma ativa de alcançar o verdadeiro ‘eu’. Isto é religião para o sentido japonês. Pois o que é a coisa mais importante é se tornar livre de todas as coisas, e desfrutar essa vida. E desfrutar junto com todos.
Então eu vim para este país para apreciar a vida junto com vocês e espalhar este ensinamento.
Muito Obrigado.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
Alguma Pergunta. Se eu puder responder.
Pergunta: Tudo tem um oposto: bem/mal etc. Qual é o oposto de Deus?
Rev. Saikawa: Na linguagem, eu não sei o oposto de Deus, mas qual é o oposto de Deus no ocidente?
Intervenção do Público: Inferno. O diabo. No ocidente, o oposto de Deus é o diabo.
Rev. Saikawa: Então Deus precisa do diabo. Da mesma forma que a ‘direita’ precisa da ‘esquerda’ e o ‘bem’ precisa do ‘mal’. Da mesma forma Deus precisa do diabo. Então esta forma de pensar, no dualismo, tenta resolver os problemas no dualismo. Mas o budismo não tenta resolver o problema de forma dualística.
Pergunta: Eu gostaria que ele falasse um pouco mais sobre qual é o conceito de religião para o oriental.
Rev. Saikawa: ‘chiukio’ é religião em japonês. ‘Chiu’ é a origem, ou base, ou raiz. Muito profundo. É o significado do mundo.
Pergunta: Qual é o conceito de realidade?
Rev. Saikawa: O significado de realidade? É como isto...(Após beber água) Isto é realidade. Isto é bom!!. A mente humana é tão inteligente, que compara com as coisas do passado [Willer: o que está acontecendo no presente. Este é o sentido]. Esta é a delusão. Por exemplo, ontem eu estava tão alegre, tão engraçado e hoje eu estou mais retraído. Comparando com a situação de hoje e de ontem. O passado não existe mais. Mesmo o ‘aqui e agora’ (batendo com a madeira na mesa) nós não podemos pegar. Se eu disser: eu ‘escutei’ este som (batendo novamente com a madeira na mesa), ele já se tornou passado. Então esta inteligência é que cria o dualismo, a delusão do ser humano. Compara. Coloca as coisas do passado inseridas no presente na ‘mesma mesa’. Esta é a delusão. O passado não existe mais. O futuro não existe mais. O ‘aqui e agora’ (batendo com a madeira na mesa). Somente o ‘aqui e agora’ existe. Então...(bebendo água novamente)...Isto é bom!! Esta é a realidade. A mais profunda parte do ensinamento.
O Rev. Saikawa se retira por alguns minutos. Após retornar, continua:
Quando eu uso a palavra ilusão, eu a uso na forma dualística de pensar, que é criada na mente. Mas isto...(bebendo água novamente)...não é ilusão. Então, muitas pessoas vivendo somente com forma dualística de pensar, muitas ilusões no cérebro, se tornam muito presas nisto.
Pergunta: O que eu gostaria de saber, é: se você pensa em limão [N.T.: a fruta], quer dizer que não existe o limão?
Rev. Saikawa: A ilusão criando as condições dos corpos. Mas o sistema do corpo do ser humano. Isto também está além do ‘bem / mal’.
Pergunta: Qual é a definição para religião em japonês?
Rev. Saikawa: A origem, a base. Então, qual é a base? A base não está no lado de fora, porque todos os problemas criados nesta vida vêm daqui, não é? [Willer: o Rev. Saikawa aponta para a sua própria cabeça que simboliza a nossa mente, no sentido de - Mente Apenas - um conceito budista muito usual na filosofia do Mahayana]. Então você tem que verdadeiramente ver seu ‘eu’. É a forma de encontrar a solução para a essência, para o significado deste mundo.
É claro que não estamos falando de problemas sociais. Nós também temos que resolver os problemas sociais, o tanto quanto for possível. Mas nós estamos falando dos problemas que nós temos que liberar, ou temos que nos libertar de todos os problemas e dor.
O ato de solucionar problemas sociais não é útil para quem está morrendo.
O ensinamento, mesmo para aqueles que estão morrendo agora, é importante. É a forma de ensinar o verdadeiro ‘eu’ e se liberar dos seus problemas.
Pergunta (Willer): O meu verdadeiro ‘eu’ é igual ao verdadeiro ‘eu’ do senhor?
Rev. Saikawa: Sim. Seu verdadeiro ‘eu’ é o verdadeiro ‘eu’ de todo mundo, como uma bola de cristal espelhada*. Então, muitas centenas de milhares de bolas de cristal espelhadas. O espelho não tem ‘eu’. Não pensa ou escolhe. Não gosta ou desgosta. Então, o que quer que venha, o espelho reflete, sem pensar ou escolher, sem preferência. Quando se vai, vai. Os olhos são um espelho, para se tornar ‘um’ com estas coisas. Sem o ‘eu’. Os ouvidos são o espelho do som (o Rev. Saikawa bate com a madeira na mesa). Tudo que vem se torna ‘um’. Se este som é preferível ou não (batendo com a madeira novamente), eles [os ouvidos] se tornam ‘um’ com ele. O espelho reflete o som. Quando o cheiro vem, se é preferível ou não, o nariz se torna ‘um’ com o cheiro. Não há o ‘eu’ como espelho, refletindo este cheiro. A língua é o espelho para refletir o gosto. Não há o ‘eu’. Sem preferência. O corpo é este espelho, refletindo ‘quente e frio’, ‘áspero e macio’. Sem o ‘eu’, como um espelho. O que quer que venha, se torna um com ele. Mas as pessoas podem pensar que ‘a mente não é um espelho e que deve existir um ‘eu’ na mente’. Mas a mente é também um espelho. A preferência não é criada pela mente. Por exemplo, eu gosto mais de chá do que café. Quando eu era pequeno, quando eu pela primeira vez bebi um bom chá, então eu comecei a preferir o chá. As pessoas que preferem café, talvez se tornam ‘um’ no momento que o examinam [Willer: cheirá-lo, tocá-lo, vê-lo, bebê-lo]. Talvez tenham um namorado ou namorada e quando experimentam o café, em determinado momento, se tornam apreciadores de café. A preferência não vem da ‘essência’ do ‘eu’. Somente ‘condicionamento’.
Há uma história de um bebê que foi criado por lobos. Ele ou ela não podia se tornar um ser humano como nós. A mente também é condicional. Ela se torna ‘um’ com a causa e efeito.
Se o [presidente] Bush pegar a mesma criança e criá-la na América, esta criança vai se tornar uma profunda crente do cristianismo. A mente também é como um espelho. Não há ‘eu’. Para tudo que vier, ela se torna ‘um’ com isto. Então, dos pés à cabeça, todo o corpo é feito de causa e efeito. Isto é chamado dharma. Então, tudo neste mundo é feito com o dharma. Então, todas as coisas, todas as pessoas, é o corpo do dharma. Isto é chamado de Budha. Não há iluminação, não há delusão. Além da delusão e da iluminação. O entendimento, a percepção, o despertar de Shakyamuni Budha, é chamado ‘iluminação’. Então nesta ‘iluminação’ de Shakyamuni Budha, não há ‘iluminação’e não há ‘delusão’ também. Somente o que é.
Eu diria novamente, todas as coisas neste mundo não possuem ‘iluminação’ ou ‘delusão’. Além da ‘iluminação’ ou da ‘delusão’. Somente a atividade mental dos seres humanos que produzem ‘ilusão’ ou ‘iluminação’.
Se eu me referir sobre o que eu falei de uma forma matemática, o ‘zero’ é igual ao ‘infinito’. Mas é muito difícil de entender através da mente. O ‘zero’ é igual ao ‘infinito’ é a mesma coisa que dizer que o ‘preto’ é igual ao ‘branco’. É muito difícil de entender. Impossível de compreender porque a atividade mental precisa de ‘direita / esquerda’, ‘do lado de dentro / do lado de fora’. A atividade mental domina o dualismo. Então o ‘branco’ é ‘preto’, o ‘zero’ é igual ao ‘infinito’. Impossível de ‘agarrar’ com a atividade mental. Então é necessário perceber através da prática.
Quando eu discursei em Porto Alegre, uma pessoa me disse que ele sabia, que ele compreendia tudo o que eu falei. Então eu perguntei a ele: Você está satisfeito com sua vida? E ele respondeu: Não absolutamente. Então a compreensão verbal, ou dharma, não pode atingir o ponto, porque a atividade mental está no dualismo. Então nós precisamos praticar ‘zazen’, para realmente nos tornarmos um com todas as coisas.
Há muitos pontos sobre Dogen Zenji. E há um ponto que diz: “sem o ‘eu’, e sentado aqui, então a chuva cai sobre mim, sobre mim mesmo”. Quando ele estava sentado em ‘zazen’ e havia a chuva, o ponto estava feito. “Isto ‘sou eu mesmo’ ”. [o Reverendo bate com a madeira na mesa três vezes]. Sem ‘delusão’, sem ‘do lado de dentro / do lado de fora’, sem o ‘eu’ e os outros, totalmente ‘um’ com todo o universo.
* [Willer: Esta imagem é uma referência a uma passagem do sutra avatamsaka, onde foi descrito a imagem da Rede de Indra que continha em seus pontos de união – suas malhas – jóias brilhantes que refletiam tudo que estava a sua volta querendo com isso ensinar de forma poética a natureza da interdependência – a infinita variedade de interações e interseções de todas as coisas, pois cada joia contém todas as outras, um importante dharma de Shakiamuni Buda. De acordo com este dharma por exemplo: sempre que toco uma flor, toco no sol ainda que eu não fique queimado. Quanto toco numa flor, toco a nuvem mesmo sem estar voando pelo céu. Quando toco na flor, toco na minha consciência, na sua consciência, e no grande planeta terra ao mesmo tempo. Isso é possível graças a compreensão da inter-existência. Se você realmente toca uma flor em profundidade, você toca o cosmos inteiro. O cosmos não é um nem muitos, quando você toca um toca muitos e quando você toca muitos toca um]
Pergunta: [N.T.: A pergunta foi feita sobre unidade, sobre o passado, porém não está compreensível]
Rev. Saikawa: No budismo, nós oferecemos coisas, não somente aos ancestrais, mas também aos espíritos deste mundo, porque nós realmente vemos a unidade; passado e presente são somente palavras. Então, quando você oferece coisas aos ancestrais, você se torna ‘um’ com os ancestrais. Sem ‘ilusão’, sem ‘do lado de dentro / do lado de fora’.
Por exemplo, na atividade mental, ‘luz’ e ‘trevas’, ou ‘dia’ e ‘noite’ são totalmente diferentes. Totalmente diferentes, como o ‘preto’ e o ‘branco’. Mas ninguém pode fazer um corte claro entre a ‘luz’ e as ‘trevas’, o ‘dia’ e a ‘noite’. Esta é uma coisa da divisão da mente.
O passado e o presente estão também aqui [o Reverendo bate com a madeira na mesa duas vezes].
Pergunta: [A pergunta, também um pouco incompreensível, é sobre o ‘presente’ e o ‘eu’].
Rev. Saikawa: Em português [o Reverendo fala em português], cada momento é novo.
Pergunta: Seria possível falar sobre o sentimento do medo.
Rev. Saikawa: O medo (temor) é a mesma coisa que a ‘sombra’ na mente. Somente a onda da mente. Então quando os estudantes (praticantes) do ‘zen’ sentam em ‘zazen’, tudo o que vier, deixe vir; tudo o que for, deixe ir. Não tente segurar, afastar para longe. Mesmo o (a) ? [N.T.: não compreendi bem o que foi dito / Willer: sensação de prazer / sensação agradável – acredito ser este o sentido], não tente segurá-lo (a). Mesmo aquela memória, não tente afastá-la. Somente seja isto. Este é o caminho para se alcançar realmente o ‘eu’ (Willer: o sentido é: este é o caminho para se atingir, alcançar o verdadeiro eu)
Terminou? Tudo Bem?
Muito Obrigado
[O Rev. Saikawa faz uma prece e, após, diz:] Que suas vidas prossigam.